12 de ago de 2009

Das coisas de Paula ou relato de um monge sobre Paula


“Era uma deusa pela duvida
Que em cada um de nós, deixou.”.
(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu III, XXVI).


As maçãs de Paula estão entreabertas. Isso se presência apenas em raros momentos despidos de presa. Rosa, rosae, rosas maçãs entreabertas de Paula; ávidas por serem saboreadas com toques de alguém, que só se mostra por inteiro nos momentos vestidos de prazer. Há entre as maçãs de Paula, agora abertas, divertidas vivacidades a serem descobertas por pontas de dedos curiosos.

Se as mesas feitas de pau Brasil da Biblioteca Beneditina tivessem olhos para verem as maçãs entreabertas de Paula, iriam querer ter também dedos para tocarem as vivacidades de Paula. E não apenas dedos, mas mãos, línguas e bocas para descascarem as maçãs róseas de finas cascas com as pontas dos dentes. Talvez as coisas que não são dadas aos sentidos, agora, teriam entristecido, pois as maçãs de Paula acabam de se fecharem, acabam por se velarem aos olhos de futuros desejos.

Ela? Paula, paulinamente só. Após fechar suas maçãs, põe-se de pé, com tamanha altivez, dada á donas de maçãs com cascas finas. Olha a bolsa tirada da pele de algum ente que já sofrera, pega com os dedos delicados e esculpidos na fina arte de folhear livros, um pente de madeira e o leva até os tenazes fios de cabelos, cheios de castanhos caminhos em relva ruiva de Paula.

O pente se tosse de prazer ao vaguear lentamente pelos fios, pelos pêlos da nuca... No rosto um leve roçar quase despercebido. Pós tão graciosa dança de fios se vê motivos antes escondidos serem despidos aos olhos do homem que á tudo contempla calado, sentado, a fingir folhear um livro sobre angiologia. Findada a libertina escovagem, seus pêlos de fêmea mansa voltam ao descanso de relva ruiva, o batom troca de lugar com o pente, é esse agora dono de toda a atenção, pois só ele naquela manhã outonal do Rio tocava os lábios, que ainda hão de serem invadidos por língua e lábios estrangeiros á Paula; ou até mesmo por sexo alheio.

Todas as vontades de Afrodite que havia em Paula foram realizadas por ela ritualisticamente, como se fossem atos de uma balé.Todos os suspiros, toques, mudanças e afecções a fizeram mais bela para o mundo dos homens, mais mulher para a chuva que gozava de um gozo inocente, só de pensar em tocar o corpo ornamentado de Paula.O busto branco, dignos de uma Danae de Padovino, ainda clamava querendo ser atingido pelas maldades daquele menino de asas, mas todo o espetáculo anteporal do corpo, que agora Paula tinha de volta, findou-se como no niilismo que fecham as cortinas do Municipal.O fechar das cortinas do Teatro Municipal sempre fazem os espíritos de naifs que vagam pelo centro da cidade, se sentirem menos felizes. Esses mesmos espíritos ainda se colocam a entenderem o pouco de alegria que morrer nesse monge que ver Paula se ir como vão as folhas do livro que folheia.

RVC

Casa de Pomba


Num pombal ela  prepara um ritual dedicado a sua vítima.  Num pombal onde há sossego para o já cansado e sôfrego sossego,  entre uma viela lamacenta que desemboca em bocas ou em becos do mundo há uma mulher . A Pomba Gira de olhos cheios de mar se enfeita para o culto á noite, noite que despe o que antes estivera escondido entre compromissos e sutis maneiras para enganar a vida.
A pomba gira se olha num espelho dentro da casa de pombo. Os cabelos muito loiros para tanta miséria são castigados pelo pente afiado por pequenas mãos de unhas ruídas.

Ela faz um laço, daqueles de amarar marinheiros, meio desleixado, meio pomposo, bem no meio da cabeça.

Ela ri, riso de malícia. Seus olhos cheios de mar vislumbram um desejo á ser desfrutado. Ri a Pomba Gira diante do espelho cheio dela. Ri como se tivesse matado um ditador. Ele se eu quisesse estaria a comer em minhas mãos. Diz com voz baixa como se contasse um segredo. A Pomba Gira voltando seu corpo nem pequeno, nem ornamentoso, para o outro lado da casa de pombo se ver no espelho. De frente há um abajur, se vê um vestido alumiado pela luz bajuladora, vestido desses onde mulheres com seios de pêra e colo alvo ficam a enganar náufragos com perfumadas lorotas.

Despi seu corpo. O espelho se sente homem diante do corpo nu da Pomba Gira dos olhos cheios de mar. A dona de um corpo, dado em oferenda a prazeres noturnos, se abserva nua diante do espelho, ela se coloca mulher no mundo. Seus grandes olhos cheios de mar miram seu sexo por um instante que soa mais hábito do que curiosidade.Veste a Pomba Gira o vestido que lhe cabe como uma fantasia posta numa terça de carnaval.

A mulher com olhos cheios de mar num movimento tão brusco quanto a um assalto abandona o espelho, agora triste e sem ela. Borrifa um perfume que traz aos náufragos o aroma de cios de ninfas virgens. Volta para o espelho novamente, só por um breve instante.  Conferi se ainda possui os olhos de mar onde homens se afogam nas noites da favela. A Pomba Gira dança, samba ou anda em direção a porta. Bate a porta e a lua presência um corpo a vadia numa ruela entre um pombal e um beco.

Dobra o beco que desemboca no Largo do Boiadeiro. A Pomba Gira duns olhos cheios de mar tem sobre o seu corpo todo o mundo em que os homens se perdem. Numa vasta noite a mulher, que há pouco se arrumava diante do espelho, caminha como se a doidivana luz da lua brilhasse para ela.

Todo o talvegue ver o predomínio de uma luz, dessas que longe de ser arquitetada pela arte de um fotografo, denota o fascínio que o improviso impõe aos olhos. No Largo do Boiadeiro, onde deixamos a Pomba Gira, os funcionários do comercio rico da Zona Sul carioca esquecem seu padecer em goles de vinho ou carreiras de pó. Em cada canto onde a luz é menos assídua, os olhos de afogar náufragos vêem homens, mulheres e jovens a espantarem seus medos em cápsulas de pequenos sonhos artificiais. Não que ela seja a tão temida exceção nesse mar de dor, ela sabe o que quer e como obter, por isso suas pernas de mulher correm de forma autônomas até o Valão. Já é quase uma da manhã e a Pomba Gira, após uma diária miserável de trabalho numa faxina,  quer também obter a felicidade momentânea dada pelo comercio de sonhos. Em toda relação comercial há quem tenha dinheiro para comprar e quem tenha mais dinheiro ainda para vender. A lógica de tal relação estaria a cozer tranqüilamente sua trama se a Pomba Gira tivesse em seu bolso o suficiente para esquecer uma dor. Nessa carência de suprir sua fome de pó a única solução que resta é procurar quem a financie. Os olhos cheios de mar vasculham os bares do valão como quem procura pedra preciosa em mina povoada. Basta que ela veja a vitima, o marinheiro a navegar num mar favela para o arrancar de sua confortável condição de marujo. Poucos moleques podem está na rua em uma madrugada de sábado. Esses são os que vêem a Pomba Gira chegar no bar e pedir para o homem um peão. Tem um cigarro? O pedido é feito de maneira tão sedutora que o peão não só oferece o cigarro, mas também seu pequeno reino: Dez cervejas pagas, um maço de um bom fumo no bolso, cem reais e duas trochas de pó que as estrelas choraram em uma noite de fastio.

“Bar do Joãozinho, petiscos e bebidas, servimos almoço” e nas noites longas de vícios servimos personagens .

 O que o dono do bar já cochilando via era a seguinte cena: Dois homens bêbados, com as narinas surjas de pó, que não é de arroz, dançando um rit qualquer com seus copos de bar já exaustos a descansarem entre os dedos. Duas mulheres uma “mamada” que pelo excesso de álcool e pó já pensa está sendo observada pelo cachorro sentado na calçada, pelo cinzeiro, pela garrafa de cerveja e pelos mosquitos que rodeiam sua cabeça. A Pomba Gira na porta do bar com um sorriso expondo aos sofrimentos que passam, todo enfeite que ela inventara na casa de pombo.
“Santo da água não fala” dizia a preta veia que nos vendia tapioca na porta na Paróquia Boa Viagem, mas essa mulher que nos faz lembra qualquer aroma de nossas infâncias, fala. A Pomba Gira no seu leve e subversivo andar chega ao ouvido do peão, que agora já se tornara náufrago, e sussurra qualquer pedido de malícia tíbia que é prontamente atendido num pegar de mão acostumada a serrote e martelo em outra mão que é mão de Pomba Gira. O peão e a mulher vão saindo com passadas atrasadas até uma viela escura em que outros náufragos dessa noite vão estacarem a dor do mundo. Os dois seres noturnos somem nas sombras. Passados alguns minutos A Pomba Gira volta, mas só. Caminha pela rua em direção contrária ao bar. Pouco  a pouca vai se distânciando daquele lugar. Alguns homens e mulheres saiem da viela gritando que um homem sangra e vai morrer.
O ritual  preparado por ela tem seu desfecho.    

RVC


Como nascem os ladrões


... e sua posse se dá graças a sorte ou graças a virtude”.
(Maquiavel. O príncipe I).


O Mano Preto me disse que tinha a boa pra gente. Falou pra brotar na travessa liberdade às 6 horas. Fui. Na descida da Rua Quatro, beco apertado e sujo, ia lembrando do aperto do aluguel e do leite do filhote; Matias que saiu do ventre minúsculo de Isadora quando ela só tinha 16 anos e um desejo de min que não cabia na casa da mãe dela... Ai peguei ela e uma TV e fui ser gente grande... Morar sozinho.

Os nove meses de tesão deram em Matias e uma falta de grana até pro desodorante, por isso a boa que o mano preto falou que tem vai salvar... Depois tem a continuação do sufoco, mas ai eu arrumo outra boa.To lá às 6 horas e porrada, tarde, sol, Janeiro, Rio. O Mano Preto só brotou na Travessa Liberdade depois das 7 horas. com os olhos vermelhos e ténis da moda disse. Ta ai automática, parece de verdade tem até dois cartuchos... Ver ai a ferramenta que me dá o lucro do trabalho... Olha. Mostrou o tênis novo, uns 600 reais.Topa? Topo.Topei mais por fome do que por maldade. Nunca roubei... Quer dizer já furtei. Sabe a diferença entre roubo e furto? No furto pega e se corre, é o famoso 155. Já no roubo tem que apontar e pegar e´ o também famoso 157, se for o caso atirar; era isso que faríamos logo mais. Fui pra casa ver Isadora, Matias e suas formes.

Tchau Matias que dorme, tchau Isadora que me olha e pensa que vou fazer faxina num Shopping as 2 da madrugada. Desço pela Cidade Nova falo com conhecidos, maconheiros, cheiradores e bêbados. Todos doidões e esquecidos. Paro no bar do coroa, na mesma liberdade da tarde, e espero o Mano Preto que chega me dando um baseado pra apertar enquanto ele limpa seus tênis da moda. Aperto, acendo, puxo, prendo e penso na boa. Nunca assaltei. O fumo samba nas mãos até sua ultima ponta... Hora do trabalho. Descemos a rua e pulamos dentro da van.

Na van o Mano Preto vai dando o desenho da missão. A gente salta na Ataulfo e vai andando de sinal em sinal o primeiro que parar com o carro perdeu... Oia. Mostrando a automática de mentira por baixo do casaco. Que bico sinistro! Descemos de preto e olhos vermelhos, caminhávamos calados, eu repetia comigo nunca fui 157, mas por Matias e Isadora viva o reinado do diabo e do ladrão .Oia disse o mano preto, olhei e vi o carro cinza, carro de play boy deslizando no sinal, deslizando, deslizando... Parou! Gritou o Mano Preto correndo já pondo o bico de mentira no vidro do carro. Pediu que o motorista baixasse o vidro do carro eu me preparava pra arrebentar o play boy de porrada quando olho pra dentro do carro e vejo um homem negro como eu e Mano Preto portando uma automática só que de verdade. Ele disse com uma voz mansa de quem aconselho criança boba. Também to na correria. O Mano Preto tirou o bico do vidro do carro e meteu o pé como foge a vida da morte deixando o bico de mentira no chão da Ataulfo. Eu fiz o mesmo.

Subindo a favela ia pensando no leite, em Matias, na Isadora e na minha estréia frustrada como 157; daí pra frente resolvir que a boa só se for com arma de verdade. Chequei no quartinho apertado que alugávamos beijei Isadora que dormia olhei pra Matias e agradeci por poder ser apenas pai e homem naquele resto de madrugada.



RVC

Olhar Vatiano

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