12 de ago de 2009

Casa de Pomba


Num pombal ela  prepara um ritual dedicado a sua vítima.  Num pombal onde há sossego para o já cansado e sôfrego sossego,  entre uma viela lamacenta que desemboca em bocas ou em becos do mundo há uma mulher . A Pomba Gira de olhos cheios de mar se enfeita para o culto á noite, noite que despe o que antes estivera escondido entre compromissos e sutis maneiras para enganar a vida.
A pomba gira se olha num espelho dentro da casa de pombo. Os cabelos muito loiros para tanta miséria são castigados pelo pente afiado por pequenas mãos de unhas ruídas.

Ela faz um laço, daqueles de amarar marinheiros, meio desleixado, meio pomposo, bem no meio da cabeça.

Ela ri, riso de malícia. Seus olhos cheios de mar vislumbram um desejo á ser desfrutado. Ri a Pomba Gira diante do espelho cheio dela. Ri como se tivesse matado um ditador. Ele se eu quisesse estaria a comer em minhas mãos. Diz com voz baixa como se contasse um segredo. A Pomba Gira voltando seu corpo nem pequeno, nem ornamentoso, para o outro lado da casa de pombo se ver no espelho. De frente há um abajur, se vê um vestido alumiado pela luz bajuladora, vestido desses onde mulheres com seios de pêra e colo alvo ficam a enganar náufragos com perfumadas lorotas.

Despi seu corpo. O espelho se sente homem diante do corpo nu da Pomba Gira dos olhos cheios de mar. A dona de um corpo, dado em oferenda a prazeres noturnos, se abserva nua diante do espelho, ela se coloca mulher no mundo. Seus grandes olhos cheios de mar miram seu sexo por um instante que soa mais hábito do que curiosidade.Veste a Pomba Gira o vestido que lhe cabe como uma fantasia posta numa terça de carnaval.

A mulher com olhos cheios de mar num movimento tão brusco quanto a um assalto abandona o espelho, agora triste e sem ela. Borrifa um perfume que traz aos náufragos o aroma de cios de ninfas virgens. Volta para o espelho novamente, só por um breve instante.  Conferi se ainda possui os olhos de mar onde homens se afogam nas noites da favela. A Pomba Gira dança, samba ou anda em direção a porta. Bate a porta e a lua presência um corpo a vadia numa ruela entre um pombal e um beco.

Dobra o beco que desemboca no Largo do Boiadeiro. A Pomba Gira duns olhos cheios de mar tem sobre o seu corpo todo o mundo em que os homens se perdem. Numa vasta noite a mulher, que há pouco se arrumava diante do espelho, caminha como se a doidivana luz da lua brilhasse para ela.

Todo o talvegue ver o predomínio de uma luz, dessas que longe de ser arquitetada pela arte de um fotografo, denota o fascínio que o improviso impõe aos olhos. No Largo do Boiadeiro, onde deixamos a Pomba Gira, os funcionários do comercio rico da Zona Sul carioca esquecem seu padecer em goles de vinho ou carreiras de pó. Em cada canto onde a luz é menos assídua, os olhos de afogar náufragos vêem homens, mulheres e jovens a espantarem seus medos em cápsulas de pequenos sonhos artificiais. Não que ela seja a tão temida exceção nesse mar de dor, ela sabe o que quer e como obter, por isso suas pernas de mulher correm de forma autônomas até o Valão. Já é quase uma da manhã e a Pomba Gira, após uma diária miserável de trabalho numa faxina,  quer também obter a felicidade momentânea dada pelo comercio de sonhos. Em toda relação comercial há quem tenha dinheiro para comprar e quem tenha mais dinheiro ainda para vender. A lógica de tal relação estaria a cozer tranqüilamente sua trama se a Pomba Gira tivesse em seu bolso o suficiente para esquecer uma dor. Nessa carência de suprir sua fome de pó a única solução que resta é procurar quem a financie. Os olhos cheios de mar vasculham os bares do valão como quem procura pedra preciosa em mina povoada. Basta que ela veja a vitima, o marinheiro a navegar num mar favela para o arrancar de sua confortável condição de marujo. Poucos moleques podem está na rua em uma madrugada de sábado. Esses são os que vêem a Pomba Gira chegar no bar e pedir para o homem um peão. Tem um cigarro? O pedido é feito de maneira tão sedutora que o peão não só oferece o cigarro, mas também seu pequeno reino: Dez cervejas pagas, um maço de um bom fumo no bolso, cem reais e duas trochas de pó que as estrelas choraram em uma noite de fastio.

“Bar do Joãozinho, petiscos e bebidas, servimos almoço” e nas noites longas de vícios servimos personagens .

 O que o dono do bar já cochilando via era a seguinte cena: Dois homens bêbados, com as narinas surjas de pó, que não é de arroz, dançando um rit qualquer com seus copos de bar já exaustos a descansarem entre os dedos. Duas mulheres uma “mamada” que pelo excesso de álcool e pó já pensa está sendo observada pelo cachorro sentado na calçada, pelo cinzeiro, pela garrafa de cerveja e pelos mosquitos que rodeiam sua cabeça. A Pomba Gira na porta do bar com um sorriso expondo aos sofrimentos que passam, todo enfeite que ela inventara na casa de pombo.
“Santo da água não fala” dizia a preta veia que nos vendia tapioca na porta na Paróquia Boa Viagem, mas essa mulher que nos faz lembra qualquer aroma de nossas infâncias, fala. A Pomba Gira no seu leve e subversivo andar chega ao ouvido do peão, que agora já se tornara náufrago, e sussurra qualquer pedido de malícia tíbia que é prontamente atendido num pegar de mão acostumada a serrote e martelo em outra mão que é mão de Pomba Gira. O peão e a mulher vão saindo com passadas atrasadas até uma viela escura em que outros náufragos dessa noite vão estacarem a dor do mundo. Os dois seres noturnos somem nas sombras. Passados alguns minutos A Pomba Gira volta, mas só. Caminha pela rua em direção contrária ao bar. Pouco  a pouca vai se distânciando daquele lugar. Alguns homens e mulheres saiem da viela gritando que um homem sangra e vai morrer.
O ritual  preparado por ela tem seu desfecho.    

RVC


Olhar Vatiano

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