12 de ago de 2009

Como nascem os ladrões


... e sua posse se dá graças a sorte ou graças a virtude”.
(Maquiavel. O príncipe I).


O Mano Preto me disse que tinha a boa pra gente. Falou pra brotar na travessa liberdade às 6 horas. Fui. Na descida da Rua Quatro, beco apertado e sujo, ia lembrando do aperto do aluguel e do leite do filhote; Matias que saiu do ventre minúsculo de Isadora quando ela só tinha 16 anos e um desejo de min que não cabia na casa da mãe dela... Ai peguei ela e uma TV e fui ser gente grande... Morar sozinho.

Os nove meses de tesão deram em Matias e uma falta de grana até pro desodorante, por isso a boa que o mano preto falou que tem vai salvar... Depois tem a continuação do sufoco, mas ai eu arrumo outra boa.To lá às 6 horas e porrada, tarde, sol, Janeiro, Rio. O Mano Preto só brotou na Travessa Liberdade depois das 7 horas. com os olhos vermelhos e ténis da moda disse. Ta ai automática, parece de verdade tem até dois cartuchos... Ver ai a ferramenta que me dá o lucro do trabalho... Olha. Mostrou o tênis novo, uns 600 reais.Topa? Topo.Topei mais por fome do que por maldade. Nunca roubei... Quer dizer já furtei. Sabe a diferença entre roubo e furto? No furto pega e se corre, é o famoso 155. Já no roubo tem que apontar e pegar e´ o também famoso 157, se for o caso atirar; era isso que faríamos logo mais. Fui pra casa ver Isadora, Matias e suas formes.

Tchau Matias que dorme, tchau Isadora que me olha e pensa que vou fazer faxina num Shopping as 2 da madrugada. Desço pela Cidade Nova falo com conhecidos, maconheiros, cheiradores e bêbados. Todos doidões e esquecidos. Paro no bar do coroa, na mesma liberdade da tarde, e espero o Mano Preto que chega me dando um baseado pra apertar enquanto ele limpa seus tênis da moda. Aperto, acendo, puxo, prendo e penso na boa. Nunca assaltei. O fumo samba nas mãos até sua ultima ponta... Hora do trabalho. Descemos a rua e pulamos dentro da van.

Na van o Mano Preto vai dando o desenho da missão. A gente salta na Ataulfo e vai andando de sinal em sinal o primeiro que parar com o carro perdeu... Oia. Mostrando a automática de mentira por baixo do casaco. Que bico sinistro! Descemos de preto e olhos vermelhos, caminhávamos calados, eu repetia comigo nunca fui 157, mas por Matias e Isadora viva o reinado do diabo e do ladrão .Oia disse o mano preto, olhei e vi o carro cinza, carro de play boy deslizando no sinal, deslizando, deslizando... Parou! Gritou o Mano Preto correndo já pondo o bico de mentira no vidro do carro. Pediu que o motorista baixasse o vidro do carro eu me preparava pra arrebentar o play boy de porrada quando olho pra dentro do carro e vejo um homem negro como eu e Mano Preto portando uma automática só que de verdade. Ele disse com uma voz mansa de quem aconselho criança boba. Também to na correria. O Mano Preto tirou o bico do vidro do carro e meteu o pé como foge a vida da morte deixando o bico de mentira no chão da Ataulfo. Eu fiz o mesmo.

Subindo a favela ia pensando no leite, em Matias, na Isadora e na minha estréia frustrada como 157; daí pra frente resolvir que a boa só se for com arma de verdade. Chequei no quartinho apertado que alugávamos beijei Isadora que dormia olhei pra Matias e agradeci por poder ser apenas pai e homem naquele resto de madrugada.



RVC

Olhar Vatiano

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