13 de out de 2009

Greve




Certa noite, no Marciso da Tijuca, Afonso O Valente foi interrompido de sua leitura por uma voz filial.


Quem tá em casa? A porta velha da casa, onde Afonso O Valente morava com sua mãe, bateu importunamente. Após aguardar um tempo, e verificar se suas roupas estavam limpas Dona falou. O café acabou. Me dá dez reais para comprar um café... E uma coisinha pra mistura. Dona exigia a parte de Afonso O Valente no custeio da situação doméstica. Não tenho mãe. Não tenho não Afonso! Dona falava com uma vozinha de choro. Não recebeu mãe? Não! A madame não estava em casa e não deu nada no bicho. Hoje ainda são 15. Dizia Afonso O Valente se dirigindo até o espelho do banheiro.

No caminho largou o livro na mesa da sala. Diante do espelho sorriu e verificou a saúde dentaria. Está bom, como fará? Não sei? Talvez Afonso se gastasse menos com livros inúteis, uma montoeira de papel que não serve pra nada! Afonso O Valente deitou no sofá como se fosse um divã. Sabe mãe nos trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos; nunca temos o suficiente. Ele fazia sua defesa. Nós temos é que exigir mais dinheiro. É? Dona em pé olhava curiosa para Afonso O Valente. É mãe. O meio para isso é a Greve. Mas filho uma greve? Você mesmo vive reclamando que não tem nada, não tem isso, não tem aquilo; aliás, você vive reclamando que não tem nada. Mentira! Temos algo, pouco, mas temos. Temos nossa força... E se temos pouco então busquemos mais lá fora, dos padrões! Mãe vamos a Greve!

Greve? Perguntou Dona. Termina assim que conseguimos o que quisermos! E conseguiremos filho? Sim! Como Afonso?

Começamos a Greve que culminará na vitória do trabalhador; por nós dois mãe. É? É! Dizia Afonso O Valente com voz firme. A Greve vai se espalhar mãe e amanhã há essa hora terá uma situação de conflito entre duas partes do País os que têm e os que pouco ou nada possuem e querem agora sua parte!

Após prever o futuro, Afonso O Valente caminhou alguns passos e parou um momento olhando pela janela. Dona deitou no sofá e cochilou. Afonso O Valente via da sua casa as luzes ao longo do Marciso da Tijuca.
Na manhã seguinte, na pequena sala da casa Dona sentada no sofá olhava a tela da TV com os olhos míopes. A qualquer momento o líder dos grevistas apareceria. Saiu ainda na segunda ou terceira hora do dia anterior.

Afonso O Valente entrou na casa com ar de tranqüilidade. Vestia um terno cor de barro sobre a roupa e segurava uma garrafa de vodka pela metade. Cá estamos nós mãe, e vejo ao longe “que é melhor morrer de vodka do que de tédio”. Onde esteve? A mãe queria saber. Organizando o trabalhador em nossa Greve! Como é que tá a greve filho? Diz tudo pra min vai? Tudo vai como previr em minha análise da conjuntura, da qual me orgulho de ser o autor. Como é? Dona não entendia. Digo que todos aderem à greve; você precisa ver o tumulto que está a Cinelândia. É? Dona soltava o quinto bocejo. Sim, sim um mar de gente revolta! Mas por que não passa na TV filho? E Dona ia passando os canais no controle remoto. Porque mãe a TV boicotou os que nada ou pouco possuem, a senhora se lembra dos comícios pelas diretas? Lembra? E ela não lembrava. Mas na TV passa tudo que importa; que é grande e importante... Se tivesse greve a TV ia mostrar! Não ia? A senhora verá! Há uma Greve, há mãe. Dona orgulhosa de sua sobriedade insistiu. Então como a TV não passa? A TV não quer passar mãe, ela é do lado dos que muito possuem e vão perder. Dona insistiu. Mas uma noticiazinha tinha que passar se tem essa tal greve filho. Dona repetia trocando os canais pelo controle remoto. Mas na TV passa tudo que importa que é grande filho, se a greve fosse grande a TV deveria... Se tem mesmo essa tal de greve né? Filho há uma greve? Ele fez um sinal de desdém e resolveu deixá-la falando sozinha.

Afonso O Valente foi até a varanda para olhar o Marciso da Tijuca. Uma grande escuridão tomou conta dos seus olhos. A luz havia acabado.
A voz de Dona ainda insistia na questão: há uma greve?




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Olhar Vatiano

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