5 de mar de 2013

Ars Erótica Aristotélica

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§ O que relato me ocorreu no ano de 1982 ou será 1984? Não lembro bem a data, mas tenho na memória a imagem do amigo livreiro Zé Borges falecido no seu pequeno apartamento, amontoado de livros, no Parque da Cidade. Fui aquele apartamento pela primeira vez vê-lo morto.  Trabalhávamos juntos numa livraria na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, ele sempre me arranjava livros e um mês antes dele enfartar eu comentara que estava estudando Aristóteles na faculdade de filosofia. 



§ Tenho que lhes contar porque pisei naquele apartamento pela primeira vez para vê meu amigo livreiro morto e o que Aristóteles tem a ver com isso. Foi uma tia dele que me ligou avisando que ele havia deixado algo para mim no seu testamento e que eu precisava ir buscar logo porque o apartamento seria vendido. Fui.
  


§ O caixão de madeira simples ainda estava na sala próximo a estante de livros raros que, agora, seriam vendidos no sebo mais barato segundo informações da Tia de Zé Borges. Ela me passou três livros volumosos, todos de capa dura e azulada. Eram os três volumes da Metafisica de Aristóteles Português Grego do professor Giovanni Reale. Agradeci e voltei para casa a fim de adentrar naquele mundo aéreo que acabara de ganhar.



§ Deitado no tapete do pequeno quarto que alugava na Lapa folheava os três livros quando dois bilhetes caíram do volume 1. O primeiro dizia: 



“Um presente para o estudante de inutilidades...”  



O segundo marcava três números 10, 3 e 23 e embaixo deles um endereço: Luís de Camões nº 30, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Esse é o endereço do Real Gabinete Português de Leitura. Havia ainda o desenho de uma pirâmide com os ângulos da base inferior menor que o ângulo superior em que o número 23, ali, apontava para o norte. A primeira ideia que me ocorreu foi a de um endereço de um livro, pois na livraria costumávamos guardar os livros assim. O número 10 é a altura da prateleira contando de baixo para cima e o número 3 a posição do livro de leste para oeste. Já a pirâmide com o número 23 apontado para o norte talvez pudesse ser a localização da estante de livros já que o Real Gabinete Português de Leitura foi construído com um único piso, mas com prateleiras superiores que podem ser alcançadas subindo as escadas dispostas pelos quatro lados, logo se desenho uma pirâmide em que o ângulo superior aponte para o norte posso contar essa estante apontada pelo ângulo superior do triângulo como sendo a numero 1 e a parti dai chegar a estante 23. 



 § No dia seguinte fui até o endereço do livro. Tive dificuldades em localizar a estante sem ser notado, mas o livro estava lá, prateleira 10 posição 3.  Era um volume de capa dura de cor de areia e nele estava impresso em tipografia romana Ars Erotica. Tremi. Fui cambaleando até uma das mesas e me pus a folhear o livro. Na contra capa estava escrito na mesma tipografia do titulo Aristóteles. Todo o livro fora redigido em latim a sorte da minha curiosidade foram as aulas de latim na faculdade de filosofia quando estudava os místicos medievais. 



§ Duas hora depois de muitos esforços e consultas a uma gramática latina  de Oswaldo Furlan R. Bussarel terminei a tradução da primeira página. Ali o tradutor do original grego relatara suas desventuras e perseguições para traduzir essa obra exotérica escrita por Aristóteles quando ele deixou a cidade de Assos e permaneceu dois anos em Mitilene na ilha de Lesbos. Lá os manuscritos foram guardados até serem encontrados pelo tradutor em uma expedição em 1788. 


§ O primeiro impulso foi dá a obra por falsa, pois o tradutor do Grego para o latim afirmara que a Arte Erótica de Aristóteles fazia parte dos escritos exotéricos do filósofo que foram perdidos. A saga do tradutor tem fim na vinda da família Real Portuguesa para o Brasil em 1807. Ele embarcara com os manuscritos e aqui sugeriu a Dom João VI que imprimisse uma obra que valorizaria como nunca sua nova Biblioteca Nacional que na época estava em construção. O regente fora convencido e agora tal obra estava em minhas mãos.

§ Guardei o livro novamente no mesmo lugar imaginando como possui-lo no dia seguinte. Arquitetei planos de possui um conhecimento único em toda terra. Pela noite sonhei que o livro vinha até o meu quarto e falava algo em latim que não pude decifrar. Acordei às 2 horas da madrugada e não dormi mais. Esperei o sol e caminhei até o lugar onde esperava-me o livro que fora destinado a mim. 
 


§ Quando fui em busca do livro ele não se encontrava lá. Tive calafrio como o homem que se sabe traído. Perguntei aos funcionários sobre a obra e procurei nos arquivos bibliográficos. Nada. A obra simplesmente não constava no acervo. Passei meses vasculhando estante por estande do Real Gabinete Português de Leitura, mas minha busca se revelara vã. 
 

§ Ainda procuro em todos os lugares que há livros pela obra perdida de Aristóteles. Eu poderia tê-la possuído leitor, mas agora ela me possui devido minha busca incansável pelos labirintos das bibliotecas até o ultimo dia de minha vida.    


   
 RVC
     

Rio, deus Castanho.

Olhar Vatiano

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