28 de jan de 2011

Como encontrei Pixinguinha no Carnaval de Rua do Rio


No Ultimo Carnaval- após umas cervejas tomadas em diferentes botequins do Rio- encontrei com Pixinguinha. O encontro foi na Banda de Ipanema que soprava a todo vapor seus metais em plena Orla Carioca. O saxofone se destacava. Contemplava a melodia do instrumento e veio-me a lembrança de um dos músicos mais criativos do Brasil: Alfredo da Rocha Viana Filho; O Pixinguinha. Tal lembrança assaltou-me não porque era carnaval. Tão pouco porque ao fundo se podia ver a cúpula da Igreja Nossa Senhora da Paz, lugar aonde nosso maestro veio encontrar Deus. A lembrança daquela tarde de 1973 não se esgotava no fato jornalístico dado por um menino que saira gritando pelas ruas de Ipanema: “Pixinguinha morreu, morreu Pixinguinha.” Também não era porque logo após a Banda de Ipanema saber da noticia mudara a musica que tocava;  uma homenagem bacante. Era como se eu tivesse dado com o autor de Carinhoso em plena rua.






De Paris ele trouxe um saxofone, desses cheios de alma. “Olha ele agora é do Jazz”, “virou americanizado!”. Falavam aquelas malignas línguas sobre o líder dos Oito Batutas. O homem negro, alto, vestido com um terno elegante, ignorava os desavisados e empunha seu saxofone com maestria. As notas mais brasileiras que um músico pode tirar de seu instrumento eram ouvidas. Não pensem cá que o bom músico se resume a tocar bem sua ferramenta de trabalho. Não! É necessário algo mais que técnica para ser um artista. Pixinguinha pegou um instrumento antes exclusivamente Jazzístico e o tornou brasileiro. Revestiu de características novas o já conhecido. Trouxe o saxofone para a brasilidade, para o samba, o choro e para toda a negritude musical que cabia dentro dele. A criatividade! Talvez isto diferencie o artista do técnico em arte.



Naquela tarde de carnaval não chovia como na tarde em que ele nos deixou. Tão pouco os acordes que eram soprados saiam dos pulmões e da genialidade de Pixinguinha. O que trazia a lembrança dele bem ali, diante de min?



O pensador grego Heráclito escrevera que é impossível entrar em um mesmo rio duas vezes. Chego a pensar que talvez possa ser impossível alguém tocar saxofone como Pixinguinha tocou. É isso! agora sei porque a lembrança dele me pegou de surpresa. Quem tocava saxofone não era Pixinguinha. Voltando para casa cantarolava o samba enredo da Portela de 1974 em que a letra diz: “A roseira dá Rosa em botão Pixinguinha dá Rosa, canção”. Pena que Pixinguinhas não dão como rosas e botões.


RVC

Olhar Vatiano

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