27 de jun de 2011

Breve biografia dum decaído



“O homem deve conhecer o fim ao qual
deve ordenar as suas intenções e ações

Tomás de Aquino, Suma teológica, I, Q.I, art 1



§ Cai. Assim quisera ter o volumoso gozo das vontades desse estado de ser homem. Um frio se rompeu com a luz e o calor.



Foto do autor do blog
§ Como mãe só é possível para os homens comuns, fui entregue as sereias que habitavam, naquela época, a ilha de Lesbos. Elas me amamentaram com o leite das poetisas, mesmo que essa palavra hoje não exista mais.

§ Quando alcancei a idade em que os homens se tornam agradáveis aos desejos das mulheres, fui mandado para trabalhar numa biblioteca de um mosteiro em Veneza. Lá li filosofia e Horácio em latim.  Aprendir sobre livros e sua ação nos homens.

§ Certa seis horas em Veneza travei amizade com uma alquimista nórdica. Ela falava sobre vikings enquanto éramos apenas animais copulando num descampado.

§ Certo meio dia fui levado junto com a alquimista para um tribunal. Alguns sábios nos julgaram perigosos. Para quem? Perguntei. Levei trinta e cinco chibatadas pela pergunta e mais dez de sobre aviso.



§ Certa tarde eu era condenado a trabalhos forçados numa colônia. Pensei: Como posso ser condenado a trabalhar por isso? Afinal será o trabalho uma pena nesse mundo? Mas por medo do chicote não perguntei.


§ Certa meia noite a mulher nórdica alquimista era queimada numa praça. Seus cabelos avermelharam no fogo.


§ No caminho para a colônia nossa caravana foi assaltada por ladrões que falavam um idioma desconhecido. As mulheres foram separadas dos homens. Nós acabamos vendidos como escravos. Mais tarde descobrir que aqueles homens não eram ladrões, mas árabes que professavam uma religião chamada islã.



Foto do autor do blog
§ Em março cheguei a Ancara num navio cargueiro. Metades dos escravos ou homens foram jogados no mar devido à peste ou a revolta.


§ Um  chefe religioso da mesquita de Ancara me comprara. O trabalho que me dava o pão e o teto era cuidar dos seus livros.


§ Da imensa coleção de livros li Avicena, Averróis e Alfa Rabi. Aristóteles era interessante nessa parte do mundo. Nunca dialoguei com o religioso do islã sobre sua filosofia. Ele não dirigia a palavra aos escravos.


§ Em maio meu senhor tinha em torno de vinte oito mulheres de todas as partes do mundo. Depois de julho restavam apenas cinco que não foram levadas pela peste ou pela sífilis que contraída na minha cama.


§ A dúvida perambulava pela cabeça do Senhor. Eu era um suspeito em potencial porque não era um eunuco. Seria enforcado na manhã seguinte.
foto do autor do blog

§ Fugir como marujo da gávea de um navio para Abeba no oeste da África. Lá esmolei e vaguei até que uma viúva negra me levou para as suas terras e pediu que eu capinasse cerca de um lote e meio de terra. A noite ela me daria o que comer. Trabalhei e comi sua comida sobre a lua gigante da Etiópia.

§ No verão era me mostrara os seus deuses que eram força e natureza. A terra ainda nos cedia sua fartura com pouco trabalho.

§ No inverno as plantações apanharam da seca. Num inverno também a viúva perdera a luta para a sífilis.

§ Escrevo essas breves memórias a caminho de uma nova terra descoberta por Portugal e chamada de Vera Cruz. Por lá dizem haver inocência e riquezas. Um ótimo lugar para mim. Enumero duas sensações: as cicatrizes nas costas que dia sim e dia não se abrem; e essa dor singular de quem já tivera asas. Mas nada dá conta das minhas ações.





RVC

Rio, deus Castanho.

22 de jun de 2011

Meu amigo Borges


Foto do autor do blog tirada na comunidade do  Dona Marta



Borges me esperou todo o outono.
Iole e minhas outras plantas o distraíram com
suas brincadeiras poliândricas .
Enquanto a casa permaneceu vazia, o silêncio
Gazeou por lá a cantar  Gardenias para Borges.
Na minha presença-ausente sua Argentina  dançava na cama
Agora, o inverno e essa solidão sadia
devorarão meu  amigo Borges.  

RVC
Rio, deus Castanho.

7 de jun de 2011

Dores do mundo

Para toda aquele que um dia já lutou
 do lado dos pobres e dos oprimidos

Não esqueçam o sofrimento.
Foto do autor do blog
As dores do mundo ainda arrombam nossas portas.
E falam das fomes abafadas pelas bombas das guerras,
Das pequenas servidões em troca do pão,
E das façanhas da burrice douta e bem vestida.
Por isso lhes peço: não esqueçam nada, nem o sofrimento.
Pois a memória é o quintal da esperança.

RVC



6 de jun de 2011

Passa pé romântico

Permita amar e desamar. O mito do amor não requer
amarras
Apenas um ente imaginado que certo dia
amara.


RVC

3 de jun de 2011

Fotos: Cidade por acaso




Pensar numa praça é um jogo, não de linguagens, mas de vontades.

Pescar o que vem, aquilo que afirmará sua urbanidade no mar da cidade.

Tendo tudo contra nada me transtorna in Ipanema

Em qual calçada do centro você esquece o seu preconceito?

... E na sexta-feira sair do mar em plena atlântica .

Olhar Vatiano

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