30 de ago de 2013

O sermão de Dimas, talvez o primeiro

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lambe-lambe de Tatiana Magioli sobre foto de Rafael Caetano

Bem aventurados sejam aqueles que criam utopias, porque a utopia é o rascunho de um mundo melhor.

Bem aventurados sejam aqueles que não querem mudar apenas os governantes e os senhores, mas desejam aniquilá-los.

Bem aventurados aqueles que tem fome e sede de arte, porque as ruas estão cheias dela.

Vinde a mim os pobres, porque a minha arte não lhes furta nada, não lhes cobra nada.

Bem-aventurados sois vós, quando vos esquecerem e maldizerem o status quo, porque a arte não precisa dele.

Bem-aventurados os que combatem o coetâneo da arte , porque deles é o porvir da arte.

Por que estão dormindo? Levantem-se
e criem para que vocês não caiam na tentação do mercado de arte!


RVC
Rio, deus Castanho.

5 de mar de 2013

Ars Erótica Aristotélica

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§ O que relato me ocorreu no ano de 1982 ou será 1984? Não lembro bem a data, mas tenho na memória a imagem do amigo livreiro Zé Borges falecido no seu pequeno apartamento, amontoado de livros, no Parque da Cidade. Fui aquele apartamento pela primeira vez vê-lo morto.  Trabalhávamos juntos numa livraria na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, ele sempre me arranjava livros e um mês antes dele enfartar eu comentara que estava estudando Aristóteles na faculdade de filosofia. 



§ Tenho que lhes contar porque pisei naquele apartamento pela primeira vez para vê meu amigo livreiro morto e o que Aristóteles tem a ver com isso. Foi uma tia dele que me ligou avisando que ele havia deixado algo para mim no seu testamento e que eu precisava ir buscar logo porque o apartamento seria vendido. Fui.
  


§ O caixão de madeira simples ainda estava na sala próximo a estante de livros raros que, agora, seriam vendidos no sebo mais barato segundo informações da Tia de Zé Borges. Ela me passou três livros volumosos, todos de capa dura e azulada. Eram os três volumes da Metafisica de Aristóteles Português Grego do professor Giovanni Reale. Agradeci e voltei para casa a fim de adentrar naquele mundo aéreo que acabara de ganhar.



§ Deitado no tapete do pequeno quarto que alugava na Lapa folheava os três livros quando dois bilhetes caíram do volume 1. O primeiro dizia: 



“Um presente para o estudante de inutilidades...”  



O segundo marcava três números 10, 3 e 23 e embaixo deles um endereço: Luís de Camões nº 30, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Esse é o endereço do Real Gabinete Português de Leitura. Havia ainda o desenho de uma pirâmide com os ângulos da base inferior menor que o ângulo superior em que o número 23, ali, apontava para o norte. A primeira ideia que me ocorreu foi a de um endereço de um livro, pois na livraria costumávamos guardar os livros assim. O número 10 é a altura da prateleira contando de baixo para cima e o número 3 a posição do livro de leste para oeste. Já a pirâmide com o número 23 apontado para o norte talvez pudesse ser a localização da estante de livros já que o Real Gabinete Português de Leitura foi construído com um único piso, mas com prateleiras superiores que podem ser alcançadas subindo as escadas dispostas pelos quatro lados, logo se desenho uma pirâmide em que o ângulo superior aponte para o norte posso contar essa estante apontada pelo ângulo superior do triângulo como sendo a numero 1 e a parti dai chegar a estante 23. 



 § No dia seguinte fui até o endereço do livro. Tive dificuldades em localizar a estante sem ser notado, mas o livro estava lá, prateleira 10 posição 3.  Era um volume de capa dura de cor de areia e nele estava impresso em tipografia romana Ars Erotica. Tremi. Fui cambaleando até uma das mesas e me pus a folhear o livro. Na contra capa estava escrito na mesma tipografia do titulo Aristóteles. Todo o livro fora redigido em latim a sorte da minha curiosidade foram as aulas de latim na faculdade de filosofia quando estudava os místicos medievais. 



§ Duas hora depois de muitos esforços e consultas a uma gramática latina  de Oswaldo Furlan R. Bussarel terminei a tradução da primeira página. Ali o tradutor do original grego relatara suas desventuras e perseguições para traduzir essa obra exotérica escrita por Aristóteles quando ele deixou a cidade de Assos e permaneceu dois anos em Mitilene na ilha de Lesbos. Lá os manuscritos foram guardados até serem encontrados pelo tradutor em uma expedição em 1788. 


§ O primeiro impulso foi dá a obra por falsa, pois o tradutor do Grego para o latim afirmara que a Arte Erótica de Aristóteles fazia parte dos escritos exotéricos do filósofo que foram perdidos. A saga do tradutor tem fim na vinda da família Real Portuguesa para o Brasil em 1807. Ele embarcara com os manuscritos e aqui sugeriu a Dom João VI que imprimisse uma obra que valorizaria como nunca sua nova Biblioteca Nacional que na época estava em construção. O regente fora convencido e agora tal obra estava em minhas mãos.

§ Guardei o livro novamente no mesmo lugar imaginando como possui-lo no dia seguinte. Arquitetei planos de possui um conhecimento único em toda terra. Pela noite sonhei que o livro vinha até o meu quarto e falava algo em latim que não pude decifrar. Acordei às 2 horas da madrugada e não dormi mais. Esperei o sol e caminhei até o lugar onde esperava-me o livro que fora destinado a mim. 
 


§ Quando fui em busca do livro ele não se encontrava lá. Tive calafrio como o homem que se sabe traído. Perguntei aos funcionários sobre a obra e procurei nos arquivos bibliográficos. Nada. A obra simplesmente não constava no acervo. Passei meses vasculhando estante por estande do Real Gabinete Português de Leitura, mas minha busca se revelara vã. 
 

§ Ainda procuro em todos os lugares que há livros pela obra perdida de Aristóteles. Eu poderia tê-la possuído leitor, mas agora ela me possui devido minha busca incansável pelos labirintos das bibliotecas até o ultimo dia de minha vida.    


   
 RVC
     

Rio, deus Castanho.

1 de mar de 2013

O Kama Sutra de Chaulukia



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A ordem chegou  há alguns meses num papel duma qualidade luxuosa. Deduzir que o conteúdo era de extrema importância, pois as cartas cujas ordens são importantíssimas costumam ser adornadas com os mais diversos símbolos, entre  eles o brasão do Império Britânico. Abri-a. Nela estava escrito:


“Caros Bibliotecários da Índia Britânica,
Enviem para a The British Library, em Londres, cópias dos manuscritos em sânscritos do livro do sábio Vatsyayana para que possamos traduzir essa obra para o idioma Britânico e publicá-la em livro ”


Sir Richard Burton  



Consul do Império Britânico em Fernando Pó. 



Fechei a carta novamente e mandei para o seu destinatário. Tive frio, febre e temor, mas ao mesmo tempo jubilo com a oportunidade que batera em minha porta. O notário membro da corte do Império solicitara aos bibliotecários das Índias um trabalho de Fausto. Passados alguns meses eles reuniram cópias de Benares, Calcutá e Jaipur. Cada localidade com seus pergaminhos feitos por escribas de gerações diferentes. A Índia mudara tanto diante da paralisia do Universo. Há as nuances de estilo e modo da língua de cada época que uma cópia foi feita afim de torna acessível a geração atual o que a outra deixara.



Agora vejo as partes deterioradas do texto do sábio Vatsyayana em silêncio, algo de sua sabedoria deteriorara? Não importa. Enviarei a esse senhor Inglês a cópia da cópia copiada. Tal intendo parece-me mesmo uma obra de Demiurgo. 


Hoje tenho entre meus dedos uma chance de finalmente ser um escritor conhecido. Nisso reside o frio, a febre , o temor e jubilo que me perseguem nesses meses. Criarei uma obra prima que perdurará por épocas. Como? Introduzirei trechos de minha autoria nas partes das cópias deixadas em branco ou que nitidamente faltam pedaços que dariam sentido ao texto. Assim criarei uma lógica que dará coerência aos fragmentos. A maioria terá que concordar entre si. Não me importa se meu nome não estará na autoria, mas sim a própria obra. Tenho exatamente dois meses e 10 dias para dá ordem ao caos e colocar meu nome entre os imortais. 


Após uma longa jornada, onde escrevi noites afinco, poderei enviar as cópias alteradas. Demorarei, Alegarei que as estradas estão em péssimas condições no inverno ou que os bibliotecários demoraram para reunir tantos fragmentos espalhados.


Escrevo agora ao Sir Richard Burton:

“Sir Richard Burton,
Envio-lhe as cópias dos manuscritos em sânscritos do livro do sábio Vatsyayana conforme o solicitado.  Espero que o livro do sábio Vatsyayana possa ser lido com afinco e sucesso pelos ingleses”

Chaulukia Visalmagor

Chefe dos Correios da Índia Britânica  

Epilogo 
O conto é baseado na correção feita por Sir Richard Burton para o Kama Sutra de Vatsyayana, em que ele tinha em mãos cópias deterioradas. Para a tradução considerou então os trechos em que a maioria das cópias concordavam entre si. Criei um personagem no caso um chefe dos correios que além do hábito de abri cartas alheias quer ser escritor. Confesso que é impossível chegar nesse personagem.Tenho que comunicar os leitores: É tudo mentira.   




RVC 
Rio, deus Castanho.

20 de fev de 2013

Panariço






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I



   _ A sinhá perguntou pro senhor o que vai dar hoje? 
_Diga a ela se me mandar três pernas eu canto o resultado. Vá.
O negrinho correu feito louco as escadinhas tortas que iam deixá-lo já na Rua dos Inválidos. A manhã acontecia sonolenta com alguns passantes tentando acordar. Uns tentavam dá cabo de suas obrigações diárias outros nem a isso se davam. O negrinho descalço e de perninhas muito magras atravessava as ruas e travessas matutinas. 
  Chegou até a Gomes Freire no numero noventa e seis e gritou com sua vozinha de menino: 
_Dona Eulália! Ó dona Eulália. 

Da janela surgiu uma senhora negra que de lenço florido sobre os cabelos já grisalhos, fez uma cara de espanto fingindo quando o negrinho proferiu o preço do consorcio que ela o mandara acerta com o Entrudo.
_ O senhor Entrudo me mandou dizer que se a senhora dá três pernas para ele, ele diz o que vai dar hoje. Sinhá Eulália vai?
 O negrinho queria saber, pois também tinha seu pedaço nesse consórcio. Dona Eulália pediu para o negrinho chegar até o portão da casa posta no sobrado da loja de instrumentos musicais. 
Esperava aquele pedaço de fome no portão mastigando uma palha nos dentes quando a voz do serviço o chamou. 
_ Toma as três pernas, trezentos cruzeiros, esse é do Entrudo o outro é seu, meu filho. 
O negrinho foi .
   _ Águia! Falou o entrudo tomando as três pernas da mão do negrinho_ agora chispa!
 O negrinho saiu da casa do apontador de jogo de bicho para saciar sua fome na padaria passando antes na Gomes Freire numero seis para dar o consórcio como encerado entre Eulália e o Entrudo.



II



   Os pés descalços com solas amarelas ladeavam a calçada cheia de obstáculos. A barriga pesara. Ele tomou o caminho mais longo do Campo de Santana_ aonde havia almoçado um bom almoço_ até a Gomes freire para entregar o resultado do bicho das 15 horas para a dona Eulália. Levava nas pequenas mãos um pedaço de papel amarelo amassado.
No seu destino , de frente a casa de Eulália ele gritou ainda correndo. 
_ Dona Eulália! 
A apostadora do jogo do bicho colocou o rosto na rua do lado de fora do portão. O negrinho entregou o pedaço de papel amassado que trazia nas mãos e se foi correndo por lado dos Arcos da Lapa. 
_ Provavelmente vai beber pinga com o que lhe dei_ Recriminava o negrinho Dona Eulália_ malandrinho.
 A mulher olhou o resultado com medo e pressa. Balançava a cabeça e dizia não. Berrou um grito um nome:_ Anastácio !
 Como um animal com dor caiu na calçada de pedras portuguesas. Anastácio, seu filho, veio em socorro da mãe que fora ludibriada pelo Entrudo. Deu burro. 

RVC 
           
Rio, deus Castanho.

5 de fev de 2013

ÓCIO DAS PLANTAS


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Quisera ter o ócio das plantas.
Molhar se me chovem,
Ventar-me em ociosidades macias
de folhas, galhos e raízes.
Como ter o ócio das plantas? 

RVC

Rio, deus Castanho.

18 de jan de 2013

Verbera-nos ó bússola


Um nada verbera,
exílio, agora, é o outro e seus silêncios de mim.
Aqui, nesse corpo que quero ser,  reinam absurdidades , elas perambulam
em peles e orifícios.
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Um nada verberara a bússola.
Seio norte.
Sexo sul.
Verbera-nos ó bússola !

RVC


Rio, deus Castanho.

16 de jan de 2013

Enforcado falsus IS



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Há corações que fazem sofrer,
 leem a sentença de morte
E depois de passada 
uma fome da carne dizem:
-ide embora...Está perdoado!
Não só perdoado
, mas 
descarnado, as mãos manchadas
De um sangue que não 
pode ser lavado ao amanhecer.
O corpo estremece comse lhe passassem a corda
Pelo pescoço ao som de doces baladas feitas por quem
Despe-lhe as roupas e te veste o capuz.
O  orgulho estremece. O crime que cometeram contra ele é
Sagrado, pois se morreu por ele, por esse pequeno crime ofertado
A todo querer.


RVC
Rio, deus Castanho.

22 de dez de 2012

Pássaro passadiço



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Quando me descobri passado 
eram as horas castanhas

As pálpebras amarelas.
Era então;
EU pássaro passadiço
num verão. 

RVC
Rio, deus Castanho.

26 de out de 2012

Três anos de Livro Blog

Viva tudo que é sincero e livre!  Três anos e o  Livro Blog tá ai. Mesmo que as fogueiras para os livros digitais sejam acessas não vai adiantar nada porque é impossível queimar  algo virtual ( Viu?). Quando lançado, ou melhor, disponibilizado on line o Livro Blog  foi alvo de furiosos ataques de conservadores, revolucionários e também dos que ficam em  cima do muro. Por que?

Por que ele afronta as editoras ao quebrar a mediação que essas fazem entre leitor e autor? Por que literatura é semente crítica e deve ser disponibilizada para todos 0800? Por que a cultura ainda não sabe lidar com os novos suportes, tão pouco com um tipo de escritor surgido com eles? 

Deixo o blábláblá retórico de lado, o leitor tem aqui uma versão em PDF do Livro Blog que já foi lido em quatro continentes . É um presente para os leitores e uma afronta para os chatos. Para os que o lerão boa leitura. Para os que o querem jogar na fogueira, agora, é só imprimir e tacar fogo!

Baixe aqui o Livro Blog



RVC
Rio, deus Castanho.

26 de ago de 2012

O leitor, o furtador


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                                         O leitor ladramente furta com oolhos
                                                        o autor
                                                          quando o lê.
                                                           Adentrar mentes lhe é o seu vago ser.
             Lê Borges é roubar Borges.
                                                        a mente  ladrada é
                                       lida, relida e ,antes de tudo, vista.

 RVC

Rio, deus Castanho.

Olhar Vatiano

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