26 de out de 2009

Livro blog

Blog não é livro! Eu sei! Mas buscando usar das novas formas de publicação surgidas com a internet está ai a seguir meu livro blog. O leitor pode baixar os cinco contos contidos nele e ainda alguns extras com fotos de minha autoria, vídeos e sátiras. Ainda você vai ler aquilo que quiser sem gastar um dinheiro ou ainda sem usar papel preservando um pouco da natureza. Pensando melhor porque livro não pode ser blog?
Boa leitura !

13 de out de 2009

Greve




Certa noite, no Marciso da Tijuca, Afonso O Valente foi interrompido de sua leitura por uma voz filial.


Quem tá em casa? A porta velha da casa, onde Afonso O Valente morava com sua mãe, bateu importunamente. Após aguardar um tempo, e verificar se suas roupas estavam limpas Dona falou. O café acabou. Me dá dez reais para comprar um café... E uma coisinha pra mistura. Dona exigia a parte de Afonso O Valente no custeio da situação doméstica. Não tenho mãe. Não tenho não Afonso! Dona falava com uma vozinha de choro. Não recebeu mãe? Não! A madame não estava em casa e não deu nada no bicho. Hoje ainda são 15. Dizia Afonso O Valente se dirigindo até o espelho do banheiro.

No caminho largou o livro na mesa da sala. Diante do espelho sorriu e verificou a saúde dentaria. Está bom, como fará? Não sei? Talvez Afonso se gastasse menos com livros inúteis, uma montoeira de papel que não serve pra nada! Afonso O Valente deitou no sofá como se fosse um divã. Sabe mãe nos trabalhamos, trabalhamos e trabalhamos; nunca temos o suficiente. Ele fazia sua defesa. Nós temos é que exigir mais dinheiro. É? Dona em pé olhava curiosa para Afonso O Valente. É mãe. O meio para isso é a Greve. Mas filho uma greve? Você mesmo vive reclamando que não tem nada, não tem isso, não tem aquilo; aliás, você vive reclamando que não tem nada. Mentira! Temos algo, pouco, mas temos. Temos nossa força... E se temos pouco então busquemos mais lá fora, dos padrões! Mãe vamos a Greve!

Greve? Perguntou Dona. Termina assim que conseguimos o que quisermos! E conseguiremos filho? Sim! Como Afonso?

Começamos a Greve que culminará na vitória do trabalhador; por nós dois mãe. É? É! Dizia Afonso O Valente com voz firme. A Greve vai se espalhar mãe e amanhã há essa hora terá uma situação de conflito entre duas partes do País os que têm e os que pouco ou nada possuem e querem agora sua parte!

Após prever o futuro, Afonso O Valente caminhou alguns passos e parou um momento olhando pela janela. Dona deitou no sofá e cochilou. Afonso O Valente via da sua casa as luzes ao longo do Marciso da Tijuca.
Na manhã seguinte, na pequena sala da casa Dona sentada no sofá olhava a tela da TV com os olhos míopes. A qualquer momento o líder dos grevistas apareceria. Saiu ainda na segunda ou terceira hora do dia anterior.

Afonso O Valente entrou na casa com ar de tranqüilidade. Vestia um terno cor de barro sobre a roupa e segurava uma garrafa de vodka pela metade. Cá estamos nós mãe, e vejo ao longe “que é melhor morrer de vodka do que de tédio”. Onde esteve? A mãe queria saber. Organizando o trabalhador em nossa Greve! Como é que tá a greve filho? Diz tudo pra min vai? Tudo vai como previr em minha análise da conjuntura, da qual me orgulho de ser o autor. Como é? Dona não entendia. Digo que todos aderem à greve; você precisa ver o tumulto que está a Cinelândia. É? Dona soltava o quinto bocejo. Sim, sim um mar de gente revolta! Mas por que não passa na TV filho? E Dona ia passando os canais no controle remoto. Porque mãe a TV boicotou os que nada ou pouco possuem, a senhora se lembra dos comícios pelas diretas? Lembra? E ela não lembrava. Mas na TV passa tudo que importa; que é grande e importante... Se tivesse greve a TV ia mostrar! Não ia? A senhora verá! Há uma Greve, há mãe. Dona orgulhosa de sua sobriedade insistiu. Então como a TV não passa? A TV não quer passar mãe, ela é do lado dos que muito possuem e vão perder. Dona insistiu. Mas uma noticiazinha tinha que passar se tem essa tal greve filho. Dona repetia trocando os canais pelo controle remoto. Mas na TV passa tudo que importa que é grande filho, se a greve fosse grande a TV deveria... Se tem mesmo essa tal de greve né? Filho há uma greve? Ele fez um sinal de desdém e resolveu deixá-la falando sozinha.

Afonso O Valente foi até a varanda para olhar o Marciso da Tijuca. Uma grande escuridão tomou conta dos seus olhos. A luz havia acabado.
A voz de Dona ainda insistia na questão: há uma greve?




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3 de out de 2009

Safo e Icaro: conto mítico urbano

"Quanto à min, meu peito é rompido de abraçar as nuvens”.
(Baudelaire, As flores do mal. VII, XX)

Pobre homem nunca sentira ou soubera o que é aquele amor erótico que tantos falam por aí nas esquinas, bares e ruas. A esse infeliz chamam de Ícaro. Vejam, agora, dobra a esquina da rua do Ouvidor e Rio Branco indo depositar no corpo de qualquer puta seu instinto sexual. Nu, tendo o corpo da outra apenas como uma promessa de gozo, nosso homem se desfaz do traje qu.Na cama de puteiro a calça jeans, num chão de luz vermelha a camisa social.Os sapatos estão nos pés que pouco se preocupam se estão descalços ou não.

Nosso Ícaro entra no 175. Suado, confuso e satisfeito se senta num banco de dois lugares só. Para evitar conversa indesejada? Fone no ouvido e mp3. Nesse kit típico do cidadão urbano em nossa contemporaneidade se encontra a salvação do egoísmo. Nosso Ícaro vai ouvindo a 98,9 MHz pelas ruas do Rio num percurso que vai da rua Buenos Aires até o mercado popular da Rocinha.

A paisagem cinza de um janeiro com pouco sol leva o olhar e a cabeça de Ícaro por duas ilhas ideais: uma desemboca no raso da vida a outra no abismo trágico que é se saber querendo. A primeira ilha falava aos ouvidos e ao estômago que roncava e pedia para ser saciado. A segunda era tão proba como a historia de um homem que tivera a ideia de voar até o Sol com um par de asas de cera. Esse pobre homem tivera o que tal ideia merecia. Morreu, pois as asas de cera derreteram com o calor do Sol. Ícaro lera essa historia em um livro que seu pouco dinheiro, ganho com o trabalho de caixa de supermercado, permitia comprar. Essa ilha era uma mulher, Safo tão bela como a que escrevera os míticos versos.
"Onde haverá um Deus para condenar-te a face?”.

(Baudelaire, As flores do mal, VI, III).

Sed liberta nos malo. Após o Padre recitar esses últimos versos  do pai nosso, Safo abria os olhos e suada pelo calor abafado e úmido do seu quarto acordava. Aquele pesadelo vinha perseguindo Safo como um cão de caça persegue a presa do caçador, com raiva servil. Safo levantava o corpo moreno e bebia uns muito goles d’água que faziam do deserto de sua garganta um lugar menos inóspito. Diante da janela de uma casa, posta na parte baixa da Rocinha, seus olhos castanhos vislumbravam o medo e os pesadelos que a visitavam naquela tarde. Ne nos inducas in tentationem. Falava o padre, com voz de ódio, nos pesadelos de Safo. Ela punha água nas palmas da mão e molhava a nuca e os cabelos cacheados, as pequenas, mas ousadas, godas d’água  deslizavam pelo corpo moreno de Safo. Acabavam por se esconderem num canto de sossego qualquer do corpo dela, para depois evaporarem no calor do corpo moreno.

A explicação que Safo arquitetara para os seus pesadelos era explicada pela sua infância mergulhada no místico catolicismo de seus pais que sofrera um corte trágico na adolescência. Seus pais a flagraram extasiada sobre sua cama junto a sua prima mais nova, que com a parte de abaixo da cintura nua, acarihava os cachos de Safo. Os pais viram em tal ato de carinho das jovens mulheres um inicio de lesbianismo.Uma doença moral foi o diagnóstico do Padre. Distúrbio de hormônios foi o que diagnosticaram os doutos médicos. Os velhos, bons membros de um rebanho, trataram de segui a risca a prescrição dada pelo Padre e pela ciência. Muitos pais nossos, aves Marias, glorias ao pai e angele dei, seguidos de quarto anos de internado para Safo em uma escola dirigida com pombas dignas de reis que querem manter suas coroas e cabeças no lugar. Rezas, aulas de latim e teologia dogmática foram o que calaram os desejos de Safo durante este Período.

Aos dezoito anos Safo se declarou livre. Após fazer uma leitura entusiasmada de Emile e Sophie, saíra da casa dos pais batendo a porta e citando Rosseau com voz apaixonada: “mas que ser sensível pode viver sempre sem paixões?" E assim Safo buscara com todo empenho a liberdade.
Para ela tudo era passado. E as verdade quebravam, como se toda certeza do passado tivesse penas de barro.

A criação religiosa de Safo junto a seu grito de liberdade  aos dezoito anos agora se misturavam e, se punham a digladiarem em uma nefanda dialética.  A confissão de Pamela vinha somar-se. Pamela você quer ser mãe? Podemos adotar! Não? Natural... Dor do parto?Mas pamela...E Safo viu Pamela bate a porta como ela fiz na casa dos pais. Só que agora não havia nenhuma mensagem bonita e ingênua de esperança. O lugar de Pamela na cama não ficara vazio, nadificante! No nada Safo encontrara o vazio sem onde Ícaro caia como pipa que foi cortada por criança.

Tudo cabava dela, a luz, o Sol que morria, a gata que miava de fome. Tudo porque as pressões ou qualquer coisa que chamam de extinto marteno não só tocara Pamela, mas também Safo. Os olhos castanhos de Safo se perdiam no meio destes pensamentos e da paisagem do Bairro Barcelos visto do alto. Lá em baixo os homens, mulheres, cachorros e moto-taxis vão trocando de lugar nessa peça que é a vida humana. Lá em baixo há muitos homens, mas um vestido de camisa social, calça jeans, sapato e fumando um cigarro amassado, chama a atenção dos olhos de Safo. Em uma fração de tempo, que é bem intimo dela, o corpo moreno parte apresado ao encontro de Ícaro.


O tempo que é de meninos a brincarem de voar sonhos em pipas é o que durou o diálogo entre Safo e Ícaro. Os dois postos, como se devem pôr jovens latinamente criados nesse mundo favela, a trocarem palavras na Via Apia rente á todos os olhares que passam naquele momento. O que conversam? Assassinemos nossas vãs curiosidades E nos aproximemos desses dois que conversam enquanto a chuva faz do cigarro de Ícaro cinzas e da malha usada por Safo objeto de sugestosos desejos:
 _...Cara to indo. A chuva vai engrossar... Daqui a pouco eu e você ficaremos resfriados.
_olha Safo _dizia Ícaro ao passo que a moça já se virava para ir _tenho que te dizer algo...
_então diz _o que foi dito não foi por meio de palavras, mas por meio do corpo de Ícaro apertando e sugando o que havia para ser tirado de Safo, na mesma ingênua atividade que era a chuva caindo no chão quente.

O diálogo foi tão curto quanto a felicidade do menino que acabava de ser cortado por outro com uma pipa e um cerol melhor. O que restara do corpo de Safo era de Ícaro, que gentilmente servia aos apetites femininos de uma mulher. Ele tinha a parte que lhe cabia dar. Poucos poetas ou prosadores conseguem transmitir aquilo que é o encontro de duas vontades. Não por falta de talento. De Sade a Fante há boas tentativas que fracassaram pelo único meio da literatura ter para expressar tal coisa ser as palavras. Palavra é palavra. Todo prosa, todo verso não é todo toque, todo sexo. Tanto mar e tanto querer não cabem num livro.
Se as coisas do mundo são testemunha de algo, então os postes, a Pedra da Gávea, as plantas e tudo que é; testemunhara o corpo moreno de Safo a repousar sobre o corpo de um moreno diferente de Ícaro.

“... De um infinito que amo e não conheci nunca...”.
(Baudelaire. As flores do mal I, XXII).

Tudo correra mediocremente bem naqueles dias chuvosos.  Ícaro vivia a sutil ilusão de que encontrara aquela coisa que tantos falavam: O amor. Nunca estivera tão anuviado por uma inversão humana que buscava alcançar. Já no Largo do Boiadeiro Ícaro imaginava, com os lábios cheios do gosto de Safo, o encontro que teria com seu amor idealico. O que Safo estaria fazendo agora enquanto Ícaro caminha para encontrá-la em seu quarto de aluguel? Ah quisera ele adivinhar no sorriso de mulher saciada de Safo a pequena alegria que ela vivia ao compartilha de um modelo de relação tão comum, tão imposto pelo labirinto que é a sociedade. Sim agora, talvez, a menina poderá ser feliz, como as moças dos contos de Drummond! O que estará fazendo Safo? Quisera não ter a resposta Ícaro? Se pudesse adiar uma dor? Adiaria?
Quando os sapatos marrons de Ícaro se colocaram diante a porta e com um gesto de chave nas mãos  o corpo podia explicar a cena a parti dos sentidos: O tato congelara suas funções e ficara entregue ao estado mórbido de susto. O paladar sentira o gosto amargo da traição. A audição ouvia uma sincera sinfonia de risadas e gemidos femininos, um alvoroço de sons tão cegos como trovões em campo aberto. A visão via o corpo de Safo derramar toda alegria sobre o corpo de Pamela, agora mãe e amante de Safo, saciada. Os sorrisos das duas mulheres eram uma mescla de melodia e deboche, desses que a natureza tão a elas.

Aquilo que o corpo de Ícaro  conta sobre o exato momento em que ele vira Safo desmanchar seu brinquedo idealíco nos sabemos. O que acontecia no poço que é todo homem? Não saberemos nunca, pois o jovem tivera o impulso cego de se jogar do sétimo andar do prédio onde morava. Não disse palavra alguma. Sentou-se na janela, olhou para as duas mulheres e deu um sorriso muito parecido com os das hienas. Não denotava nada, medo,raiva ou susto; nada. Apenas uma animalidade, tão necessária como o sorriso de uma hiena, ocupava seu rosto. Pôs-se de cotovelos sobre o mármore da janela e como quem ensaia um salto de asa delta ou um passo de dança soltou. Descobriu que a vida que vemos diante dos olhos é tão falsa como homens de asa, e que a única coisa sincera que compreendeu na vida não foi o amor idealico que nutria por Safo. Aqui a cega e estúpida vontade pinta mais um quadro que as lagrimas de Safo dizem ser pranto.

RVC

12 de ago de 2009

Das coisas de Paula ou relato de um monge sobre Paula


“Era uma deusa pela duvida
Que em cada um de nós, deixou.”.
(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu III, XXVI).


As maçãs de Paula estão entreabertas. Isso se presência apenas em raros momentos despidos de presa. Rosa, rosae, rosas maçãs entreabertas de Paula; ávidas por serem saboreadas com toques de alguém, que só se mostra por inteiro nos momentos vestidos de prazer. Há entre as maçãs de Paula, agora abertas, divertidas vivacidades a serem descobertas por pontas de dedos curiosos.

Se as mesas feitas de pau Brasil da Biblioteca Beneditina tivessem olhos para verem as maçãs entreabertas de Paula, iriam querer ter também dedos para tocarem as vivacidades de Paula. E não apenas dedos, mas mãos, línguas e bocas para descascarem as maçãs róseas de finas cascas com as pontas dos dentes. Talvez as coisas que não são dadas aos sentidos, agora, teriam entristecido, pois as maçãs de Paula acabam de se fecharem, acabam por se velarem aos olhos de futuros desejos.

Ela? Paula, paulinamente só. Após fechar suas maçãs, põe-se de pé, com tamanha altivez, dada á donas de maçãs com cascas finas. Olha a bolsa tirada da pele de algum ente que já sofrera, pega com os dedos delicados e esculpidos na fina arte de folhear livros, um pente de madeira e o leva até os tenazes fios de cabelos, cheios de castanhos caminhos em relva ruiva de Paula.

O pente se tosse de prazer ao vaguear lentamente pelos fios, pelos pêlos da nuca... No rosto um leve roçar quase despercebido. Pós tão graciosa dança de fios se vê motivos antes escondidos serem despidos aos olhos do homem que á tudo contempla calado, sentado, a fingir folhear um livro sobre angiologia. Findada a libertina escovagem, seus pêlos de fêmea mansa voltam ao descanso de relva ruiva, o batom troca de lugar com o pente, é esse agora dono de toda a atenção, pois só ele naquela manhã outonal do Rio tocava os lábios, que ainda hão de serem invadidos por língua e lábios estrangeiros á Paula; ou até mesmo por sexo alheio.

Todas as vontades de Afrodite que havia em Paula foram realizadas por ela ritualisticamente, como se fossem atos de uma balé.Todos os suspiros, toques, mudanças e afecções a fizeram mais bela para o mundo dos homens, mais mulher para a chuva que gozava de um gozo inocente, só de pensar em tocar o corpo ornamentado de Paula.O busto branco, dignos de uma Danae de Padovino, ainda clamava querendo ser atingido pelas maldades daquele menino de asas, mas todo o espetáculo anteporal do corpo, que agora Paula tinha de volta, findou-se como no niilismo que fecham as cortinas do Municipal.O fechar das cortinas do Teatro Municipal sempre fazem os espíritos de naifs que vagam pelo centro da cidade, se sentirem menos felizes. Esses mesmos espíritos ainda se colocam a entenderem o pouco de alegria que morrer nesse monge que ver Paula se ir como vão as folhas do livro que folheia.

RVC

Casa de Pomba


Num pombal ela  prepara um ritual dedicado a sua vítima.  Num pombal onde há sossego para o já cansado e sôfrego sossego,  entre uma viela lamacenta que desemboca em bocas ou em becos do mundo há uma mulher . A Pomba Gira de olhos cheios de mar se enfeita para o culto á noite, noite que despe o que antes estivera escondido entre compromissos e sutis maneiras para enganar a vida.
A pomba gira se olha num espelho dentro da casa de pombo. Os cabelos muito loiros para tanta miséria são castigados pelo pente afiado por pequenas mãos de unhas ruídas.

Ela faz um laço, daqueles de amarar marinheiros, meio desleixado, meio pomposo, bem no meio da cabeça.

Ela ri, riso de malícia. Seus olhos cheios de mar vislumbram um desejo á ser desfrutado. Ri a Pomba Gira diante do espelho cheio dela. Ri como se tivesse matado um ditador. Ele se eu quisesse estaria a comer em minhas mãos. Diz com voz baixa como se contasse um segredo. A Pomba Gira voltando seu corpo nem pequeno, nem ornamentoso, para o outro lado da casa de pombo se ver no espelho. De frente há um abajur, se vê um vestido alumiado pela luz bajuladora, vestido desses onde mulheres com seios de pêra e colo alvo ficam a enganar náufragos com perfumadas lorotas.

Despi seu corpo. O espelho se sente homem diante do corpo nu da Pomba Gira dos olhos cheios de mar. A dona de um corpo, dado em oferenda a prazeres noturnos, se abserva nua diante do espelho, ela se coloca mulher no mundo. Seus grandes olhos cheios de mar miram seu sexo por um instante que soa mais hábito do que curiosidade.Veste a Pomba Gira o vestido que lhe cabe como uma fantasia posta numa terça de carnaval.

A mulher com olhos cheios de mar num movimento tão brusco quanto a um assalto abandona o espelho, agora triste e sem ela. Borrifa um perfume que traz aos náufragos o aroma de cios de ninfas virgens. Volta para o espelho novamente, só por um breve instante.  Conferi se ainda possui os olhos de mar onde homens se afogam nas noites da favela. A Pomba Gira dança, samba ou anda em direção a porta. Bate a porta e a lua presência um corpo a vadia numa ruela entre um pombal e um beco.

Dobra o beco que desemboca no Largo do Boiadeiro. A Pomba Gira duns olhos cheios de mar tem sobre o seu corpo todo o mundo em que os homens se perdem. Numa vasta noite a mulher, que há pouco se arrumava diante do espelho, caminha como se a doidivana luz da lua brilhasse para ela.

Todo o talvegue ver o predomínio de uma luz, dessas que longe de ser arquitetada pela arte de um fotografo, denota o fascínio que o improviso impõe aos olhos. No Largo do Boiadeiro, onde deixamos a Pomba Gira, os funcionários do comercio rico da Zona Sul carioca esquecem seu padecer em goles de vinho ou carreiras de pó. Em cada canto onde a luz é menos assídua, os olhos de afogar náufragos vêem homens, mulheres e jovens a espantarem seus medos em cápsulas de pequenos sonhos artificiais. Não que ela seja a tão temida exceção nesse mar de dor, ela sabe o que quer e como obter, por isso suas pernas de mulher correm de forma autônomas até o Valão. Já é quase uma da manhã e a Pomba Gira, após uma diária miserável de trabalho numa faxina,  quer também obter a felicidade momentânea dada pelo comercio de sonhos. Em toda relação comercial há quem tenha dinheiro para comprar e quem tenha mais dinheiro ainda para vender. A lógica de tal relação estaria a cozer tranqüilamente sua trama se a Pomba Gira tivesse em seu bolso o suficiente para esquecer uma dor. Nessa carência de suprir sua fome de pó a única solução que resta é procurar quem a financie. Os olhos cheios de mar vasculham os bares do valão como quem procura pedra preciosa em mina povoada. Basta que ela veja a vitima, o marinheiro a navegar num mar favela para o arrancar de sua confortável condição de marujo. Poucos moleques podem está na rua em uma madrugada de sábado. Esses são os que vêem a Pomba Gira chegar no bar e pedir para o homem um peão. Tem um cigarro? O pedido é feito de maneira tão sedutora que o peão não só oferece o cigarro, mas também seu pequeno reino: Dez cervejas pagas, um maço de um bom fumo no bolso, cem reais e duas trochas de pó que as estrelas choraram em uma noite de fastio.

“Bar do Joãozinho, petiscos e bebidas, servimos almoço” e nas noites longas de vícios servimos personagens .

 O que o dono do bar já cochilando via era a seguinte cena: Dois homens bêbados, com as narinas surjas de pó, que não é de arroz, dançando um rit qualquer com seus copos de bar já exaustos a descansarem entre os dedos. Duas mulheres uma “mamada” que pelo excesso de álcool e pó já pensa está sendo observada pelo cachorro sentado na calçada, pelo cinzeiro, pela garrafa de cerveja e pelos mosquitos que rodeiam sua cabeça. A Pomba Gira na porta do bar com um sorriso expondo aos sofrimentos que passam, todo enfeite que ela inventara na casa de pombo.
“Santo da água não fala” dizia a preta veia que nos vendia tapioca na porta na Paróquia Boa Viagem, mas essa mulher que nos faz lembra qualquer aroma de nossas infâncias, fala. A Pomba Gira no seu leve e subversivo andar chega ao ouvido do peão, que agora já se tornara náufrago, e sussurra qualquer pedido de malícia tíbia que é prontamente atendido num pegar de mão acostumada a serrote e martelo em outra mão que é mão de Pomba Gira. O peão e a mulher vão saindo com passadas atrasadas até uma viela escura em que outros náufragos dessa noite vão estacarem a dor do mundo. Os dois seres noturnos somem nas sombras. Passados alguns minutos A Pomba Gira volta, mas só. Caminha pela rua em direção contrária ao bar. Pouco  a pouca vai se distânciando daquele lugar. Alguns homens e mulheres saiem da viela gritando que um homem sangra e vai morrer.
O ritual  preparado por ela tem seu desfecho.    

RVC


Como nascem os ladrões


... e sua posse se dá graças a sorte ou graças a virtude”.
(Maquiavel. O príncipe I).


O Mano Preto me disse que tinha a boa pra gente. Falou pra brotar na travessa liberdade às 6 horas. Fui. Na descida da Rua Quatro, beco apertado e sujo, ia lembrando do aperto do aluguel e do leite do filhote; Matias que saiu do ventre minúsculo de Isadora quando ela só tinha 16 anos e um desejo de min que não cabia na casa da mãe dela... Ai peguei ela e uma TV e fui ser gente grande... Morar sozinho.

Os nove meses de tesão deram em Matias e uma falta de grana até pro desodorante, por isso a boa que o mano preto falou que tem vai salvar... Depois tem a continuação do sufoco, mas ai eu arrumo outra boa.To lá às 6 horas e porrada, tarde, sol, Janeiro, Rio. O Mano Preto só brotou na Travessa Liberdade depois das 7 horas. com os olhos vermelhos e ténis da moda disse. Ta ai automática, parece de verdade tem até dois cartuchos... Ver ai a ferramenta que me dá o lucro do trabalho... Olha. Mostrou o tênis novo, uns 600 reais.Topa? Topo.Topei mais por fome do que por maldade. Nunca roubei... Quer dizer já furtei. Sabe a diferença entre roubo e furto? No furto pega e se corre, é o famoso 155. Já no roubo tem que apontar e pegar e´ o também famoso 157, se for o caso atirar; era isso que faríamos logo mais. Fui pra casa ver Isadora, Matias e suas formes.

Tchau Matias que dorme, tchau Isadora que me olha e pensa que vou fazer faxina num Shopping as 2 da madrugada. Desço pela Cidade Nova falo com conhecidos, maconheiros, cheiradores e bêbados. Todos doidões e esquecidos. Paro no bar do coroa, na mesma liberdade da tarde, e espero o Mano Preto que chega me dando um baseado pra apertar enquanto ele limpa seus tênis da moda. Aperto, acendo, puxo, prendo e penso na boa. Nunca assaltei. O fumo samba nas mãos até sua ultima ponta... Hora do trabalho. Descemos a rua e pulamos dentro da van.

Na van o Mano Preto vai dando o desenho da missão. A gente salta na Ataulfo e vai andando de sinal em sinal o primeiro que parar com o carro perdeu... Oia. Mostrando a automática de mentira por baixo do casaco. Que bico sinistro! Descemos de preto e olhos vermelhos, caminhávamos calados, eu repetia comigo nunca fui 157, mas por Matias e Isadora viva o reinado do diabo e do ladrão .Oia disse o mano preto, olhei e vi o carro cinza, carro de play boy deslizando no sinal, deslizando, deslizando... Parou! Gritou o Mano Preto correndo já pondo o bico de mentira no vidro do carro. Pediu que o motorista baixasse o vidro do carro eu me preparava pra arrebentar o play boy de porrada quando olho pra dentro do carro e vejo um homem negro como eu e Mano Preto portando uma automática só que de verdade. Ele disse com uma voz mansa de quem aconselho criança boba. Também to na correria. O Mano Preto tirou o bico do vidro do carro e meteu o pé como foge a vida da morte deixando o bico de mentira no chão da Ataulfo. Eu fiz o mesmo.

Subindo a favela ia pensando no leite, em Matias, na Isadora e na minha estréia frustrada como 157; daí pra frente resolvir que a boa só se for com arma de verdade. Chequei no quartinho apertado que alugávamos beijei Isadora que dormia olhei pra Matias e agradeci por poder ser apenas pai e homem naquele resto de madrugada.



RVC

10 de jul de 2009

Rio de desordens e ordens, muitas ordens

Depois do spray da legalidade e o choque de ordem; vem ai o novo desperdício de energia publica: O choque de legalidade!

(foto do autor do blog)




Os dois artistas tradicionais da feira de domingo do Largo do Boiadeiro na Rocinha ( na foto acima) também esperam poder receberem os empréstimos com menores taxas de juros para ampliarem o seu negocio. A arte popular não viável comercialmente na cidade do Rio de Janeiro vem ficando de fora das políticas públicas apresentadas ate´ agora.

9 de jul de 2009

Os Choques e as ordens pelas ruas do Rio ou brincando de lego com a cidade

http://rafaelvatecaetano.blogspot.com
O Sr besouro dono da construção na foto ao lado corre o risco de ter seu
sobradinho demolido pelas autoridades da cidade. A construção não tem a autorização das autoridades da cidade. O dono da construção promete recorrer as ultimas instâncias para não ver sua casa demolida como um castelo feito com lego por criança enjoada do brinquedo. Segundo o Sr besouro falta saber quem deu o lego para as autoridades para poder saber de quem reclamar.


(foto do autor do blog)

8 de jul de 2009

Choque de ordem


Um carioca ainda não educado que se mudou de Ipanema
após um choque que teve por la’. (foto do autor do blog).

Depois do choque de ordem, as dez-ordens para o carioca!

Não durma nas ruas.

Não ande nas ruas.

Não pare na rua para tomar sol ou qualquer babaquice romântica.

Não fale com estranhos.

Desconfie do cara do lado esquerdo.

Desconfie do cara do lado direito.

Desconfie de quem esta´ na sua frente.

Desconfie de quem esta´ atrás.

Cuidado com certas placas e blitzs principalmente se a blitz for realmente uma blitz.

Não acredite em tudo que ler.

7 de jul de 2009

O bobo a corte e as 3 frases do dia de hoje .


(foto do autor do blog)

“A sanidade pode ser definida como uma síntese de insanidades”

( Bertrand Russel)


"Ele me levou até a enfermaria para mostrar que não havia vagas, mas eu disse que precisava de atendimento, porque minha bolsa tinha rompido.

( Valquíria Gonçalves Bernardo, de 22 anos no
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/07/06/e06077940.asp)

Insanidades dos serviços da cidade pondo quem vive nela em risco.

( Domínio público)



6 de jul de 2009

Crescente da lua, povo na rua

O dois irmão adormeceu o sono que tardava chegar. Ao ouvir o seu primeiro respiro sonolento aquela luz redonda de luz própria anuncia mais uma noite de lua cheia na cidade do Rio. Nesse momento grávidas tem seus braços marcados como gado destinado a outro matadouro em pleno Hospital Miguel Couto.

Certa vez ela triste pelo afogamento de seu irmão foi colocada no céu pelos deuses. Hoje ela observa uma mãe a vagar pela cidade, cheia da luz da lua, procurando quem faça o seu parto. Parindo a noite do Rio esta bela Lua, quem negaria a uma mãe o direito de ter seu filho,
 Já saindo por ali, por aqui e por onde houvesse lugar para ser conhecido pelo mundo.

As bruxas da Tessalia dialogavam em ritos noturnos com a lua, elas pretendiam fazer-la descer branca na terra; e ainda queriam livrá-la do grande dragão que ameaçava devorar a Lua. Quem livrara´ a vida por nascer do grande dragão dando de ombros para a vida nessa noite de Lua cheia no Rio?

(foto do autor do blog)


RVC

Olhar Vatiano

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