3 de out de 2009

Safo e Icaro: conto mítico urbano

"Quanto à min, meu peito é rompido de abraçar as nuvens”.
(Baudelaire, As flores do mal. VII, XX)

Pobre homem nunca sentira ou soubera o que é aquele amor erótico que tantos falam por aí nas esquinas, bares e ruas. A esse infeliz chamam de Ícaro. Vejam, agora, dobra a esquina da rua do Ouvidor e Rio Branco indo depositar no corpo de qualquer puta seu instinto sexual. Nu, tendo o corpo da outra apenas como uma promessa de gozo, nosso homem se desfaz do traje qu.Na cama de puteiro a calça jeans, num chão de luz vermelha a camisa social.Os sapatos estão nos pés que pouco se preocupam se estão descalços ou não.

Nosso Ícaro entra no 175. Suado, confuso e satisfeito se senta num banco de dois lugares só. Para evitar conversa indesejada? Fone no ouvido e mp3. Nesse kit típico do cidadão urbano em nossa contemporaneidade se encontra a salvação do egoísmo. Nosso Ícaro vai ouvindo a 98,9 MHz pelas ruas do Rio num percurso que vai da rua Buenos Aires até o mercado popular da Rocinha.

A paisagem cinza de um janeiro com pouco sol leva o olhar e a cabeça de Ícaro por duas ilhas ideais: uma desemboca no raso da vida a outra no abismo trágico que é se saber querendo. A primeira ilha falava aos ouvidos e ao estômago que roncava e pedia para ser saciado. A segunda era tão proba como a historia de um homem que tivera a ideia de voar até o Sol com um par de asas de cera. Esse pobre homem tivera o que tal ideia merecia. Morreu, pois as asas de cera derreteram com o calor do Sol. Ícaro lera essa historia em um livro que seu pouco dinheiro, ganho com o trabalho de caixa de supermercado, permitia comprar. Essa ilha era uma mulher, Safo tão bela como a que escrevera os míticos versos.
"Onde haverá um Deus para condenar-te a face?”.

(Baudelaire, As flores do mal, VI, III).

Sed liberta nos malo. Após o Padre recitar esses últimos versos  do pai nosso, Safo abria os olhos e suada pelo calor abafado e úmido do seu quarto acordava. Aquele pesadelo vinha perseguindo Safo como um cão de caça persegue a presa do caçador, com raiva servil. Safo levantava o corpo moreno e bebia uns muito goles d’água que faziam do deserto de sua garganta um lugar menos inóspito. Diante da janela de uma casa, posta na parte baixa da Rocinha, seus olhos castanhos vislumbravam o medo e os pesadelos que a visitavam naquela tarde. Ne nos inducas in tentationem. Falava o padre, com voz de ódio, nos pesadelos de Safo. Ela punha água nas palmas da mão e molhava a nuca e os cabelos cacheados, as pequenas, mas ousadas, godas d’água  deslizavam pelo corpo moreno de Safo. Acabavam por se esconderem num canto de sossego qualquer do corpo dela, para depois evaporarem no calor do corpo moreno.

A explicação que Safo arquitetara para os seus pesadelos era explicada pela sua infância mergulhada no místico catolicismo de seus pais que sofrera um corte trágico na adolescência. Seus pais a flagraram extasiada sobre sua cama junto a sua prima mais nova, que com a parte de abaixo da cintura nua, acarihava os cachos de Safo. Os pais viram em tal ato de carinho das jovens mulheres um inicio de lesbianismo.Uma doença moral foi o diagnóstico do Padre. Distúrbio de hormônios foi o que diagnosticaram os doutos médicos. Os velhos, bons membros de um rebanho, trataram de segui a risca a prescrição dada pelo Padre e pela ciência. Muitos pais nossos, aves Marias, glorias ao pai e angele dei, seguidos de quarto anos de internado para Safo em uma escola dirigida com pombas dignas de reis que querem manter suas coroas e cabeças no lugar. Rezas, aulas de latim e teologia dogmática foram o que calaram os desejos de Safo durante este Período.

Aos dezoito anos Safo se declarou livre. Após fazer uma leitura entusiasmada de Emile e Sophie, saíra da casa dos pais batendo a porta e citando Rosseau com voz apaixonada: “mas que ser sensível pode viver sempre sem paixões?" E assim Safo buscara com todo empenho a liberdade.
Para ela tudo era passado. E as verdade quebravam, como se toda certeza do passado tivesse penas de barro.

A criação religiosa de Safo junto a seu grito de liberdade  aos dezoito anos agora se misturavam e, se punham a digladiarem em uma nefanda dialética.  A confissão de Pamela vinha somar-se. Pamela você quer ser mãe? Podemos adotar! Não? Natural... Dor do parto?Mas pamela...E Safo viu Pamela bate a porta como ela fiz na casa dos pais. Só que agora não havia nenhuma mensagem bonita e ingênua de esperança. O lugar de Pamela na cama não ficara vazio, nadificante! No nada Safo encontrara o vazio sem onde Ícaro caia como pipa que foi cortada por criança.

Tudo cabava dela, a luz, o Sol que morria, a gata que miava de fome. Tudo porque as pressões ou qualquer coisa que chamam de extinto marteno não só tocara Pamela, mas também Safo. Os olhos castanhos de Safo se perdiam no meio destes pensamentos e da paisagem do Bairro Barcelos visto do alto. Lá em baixo os homens, mulheres, cachorros e moto-taxis vão trocando de lugar nessa peça que é a vida humana. Lá em baixo há muitos homens, mas um vestido de camisa social, calça jeans, sapato e fumando um cigarro amassado, chama a atenção dos olhos de Safo. Em uma fração de tempo, que é bem intimo dela, o corpo moreno parte apresado ao encontro de Ícaro.


O tempo que é de meninos a brincarem de voar sonhos em pipas é o que durou o diálogo entre Safo e Ícaro. Os dois postos, como se devem pôr jovens latinamente criados nesse mundo favela, a trocarem palavras na Via Apia rente á todos os olhares que passam naquele momento. O que conversam? Assassinemos nossas vãs curiosidades E nos aproximemos desses dois que conversam enquanto a chuva faz do cigarro de Ícaro cinzas e da malha usada por Safo objeto de sugestosos desejos:
 _...Cara to indo. A chuva vai engrossar... Daqui a pouco eu e você ficaremos resfriados.
_olha Safo _dizia Ícaro ao passo que a moça já se virava para ir _tenho que te dizer algo...
_então diz _o que foi dito não foi por meio de palavras, mas por meio do corpo de Ícaro apertando e sugando o que havia para ser tirado de Safo, na mesma ingênua atividade que era a chuva caindo no chão quente.

O diálogo foi tão curto quanto a felicidade do menino que acabava de ser cortado por outro com uma pipa e um cerol melhor. O que restara do corpo de Safo era de Ícaro, que gentilmente servia aos apetites femininos de uma mulher. Ele tinha a parte que lhe cabia dar. Poucos poetas ou prosadores conseguem transmitir aquilo que é o encontro de duas vontades. Não por falta de talento. De Sade a Fante há boas tentativas que fracassaram pelo único meio da literatura ter para expressar tal coisa ser as palavras. Palavra é palavra. Todo prosa, todo verso não é todo toque, todo sexo. Tanto mar e tanto querer não cabem num livro.
Se as coisas do mundo são testemunha de algo, então os postes, a Pedra da Gávea, as plantas e tudo que é; testemunhara o corpo moreno de Safo a repousar sobre o corpo de um moreno diferente de Ícaro.

“... De um infinito que amo e não conheci nunca...”.
(Baudelaire. As flores do mal I, XXII).

Tudo correra mediocremente bem naqueles dias chuvosos.  Ícaro vivia a sutil ilusão de que encontrara aquela coisa que tantos falavam: O amor. Nunca estivera tão anuviado por uma inversão humana que buscava alcançar. Já no Largo do Boiadeiro Ícaro imaginava, com os lábios cheios do gosto de Safo, o encontro que teria com seu amor idealico. O que Safo estaria fazendo agora enquanto Ícaro caminha para encontrá-la em seu quarto de aluguel? Ah quisera ele adivinhar no sorriso de mulher saciada de Safo a pequena alegria que ela vivia ao compartilha de um modelo de relação tão comum, tão imposto pelo labirinto que é a sociedade. Sim agora, talvez, a menina poderá ser feliz, como as moças dos contos de Drummond! O que estará fazendo Safo? Quisera não ter a resposta Ícaro? Se pudesse adiar uma dor? Adiaria?
Quando os sapatos marrons de Ícaro se colocaram diante a porta e com um gesto de chave nas mãos  o corpo podia explicar a cena a parti dos sentidos: O tato congelara suas funções e ficara entregue ao estado mórbido de susto. O paladar sentira o gosto amargo da traição. A audição ouvia uma sincera sinfonia de risadas e gemidos femininos, um alvoroço de sons tão cegos como trovões em campo aberto. A visão via o corpo de Safo derramar toda alegria sobre o corpo de Pamela, agora mãe e amante de Safo, saciada. Os sorrisos das duas mulheres eram uma mescla de melodia e deboche, desses que a natureza tão a elas.

Aquilo que o corpo de Ícaro  conta sobre o exato momento em que ele vira Safo desmanchar seu brinquedo idealíco nos sabemos. O que acontecia no poço que é todo homem? Não saberemos nunca, pois o jovem tivera o impulso cego de se jogar do sétimo andar do prédio onde morava. Não disse palavra alguma. Sentou-se na janela, olhou para as duas mulheres e deu um sorriso muito parecido com os das hienas. Não denotava nada, medo,raiva ou susto; nada. Apenas uma animalidade, tão necessária como o sorriso de uma hiena, ocupava seu rosto. Pôs-se de cotovelos sobre o mármore da janela e como quem ensaia um salto de asa delta ou um passo de dança soltou. Descobriu que a vida que vemos diante dos olhos é tão falsa como homens de asa, e que a única coisa sincera que compreendeu na vida não foi o amor idealico que nutria por Safo. Aqui a cega e estúpida vontade pinta mais um quadro que as lagrimas de Safo dizem ser pranto.

RVC

Olhar Vatiano

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