10 de jul de 2012

Tomu Junto!



http://rafaelvatecaetano.blogspot.com
Foto de Rafael Caetano 




Um dos novos talentos promissores do teatro concede uma entrevista para esse periódico sem nome, sem dono, hediondo mais cheio de assunto e interessantíssimo.


Quando me falaram (ou mandaram) para escrever uma entrevista com um artista jovem da PUC pensei em Jesus. Não que esse repórter ou ex-repórter – tão cético quanto os torcedores do Vasco no brasileirão– tenha se convertido. Jesus para mim sempre foi um cara que eu encontrava pelos becos e ruas da Rocinha ou pelos Pilotis com um ar de humildade, um sorriso e seus óculos de John Lennon; e não Lucas Valentim. 

  Então como esse repórter ou ex-repórter poderá quebrar esse paradigma da imagem de Jesus? Começo com o óbvio e não ululante. Com a Biografia de Jesus, que dizer Lucas Valentim.



Lucas Valentim é ator e estudante de Artes Cênicas da PUC – Rio. Com apenas 10 anos entrou no grupo de teatro Nós do Morro, onde estudou e trabalhou por dez anos. Possui um trabalho de 12 anos como Jesus na Via Sacra da Rocinha (sacou porque ele é Jesus), maior espetáculo a céu aberto da América Latina, pelo qual foi indicado ao prêmio de Cultura do Estado em 2009. Como ator já trabalhou em espetáculos teatrais, tanto em teatro convencional como em teatro de rua, performances e leituras dramatizadas. Teve a oportunidade de estudar e trabalhar com importantes diretores como Guti Fraga, Miriam Pérsia, Miwa Yanagzawa, Moacir Chaves e Caique Botkay. 



Os trabalhos sociais também tem fôlego na vida do ator com oficinas de teatro, seja como professor ou assistente, tendo trabalhado em escolas públicas, em comunidades do Rio e também com menores de rua. Sua última oficina foi um projeto pelo qual teve apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, onde pode desenvolver oficinas de teatro com adultos moradores da comunidade da Rocinha.



 Atualmente o ator está em intercâmbio acadêmico, onde cursa matérias de Cinema na Universidad Nacional de Colômbia, em Bogotá. Na Colômbia ele morou um mês no Teatro Varasanta, onde teve a oportunidade de conhecer e estudar com Fernando Montes, diretor do teatro e conhecido por ter trabalhado com o diretor teatral Jergy Grotowski na Fundação Pontedera na Italia. Por isso ele me concedeu essa entrevista por e-mail, e também por isso demorei uma semana além do prazo para entregar essa entrevista que, agora, o leitor tem em mãos. 



Lucas você foi durante muito tempo o Jesus da Via-sacra da Rocinha, como é isso? O Jesus da Via Sacra da Rocinha é um personagem que pude trabalhar durante 10 anos. Sendo assim, comecei a trabalhar como Jesus aos 13 anos, uma criança ainda. Ou seja, passei da infância pela adolescência até o começo de minha vida adulta com esse personagem. 



Conta para agente como era fazer o mesmo personagem durante anos? 




Com Jesus eu pude me conhecer melhor, ter dimensão de capacidades minhas como ator e artista de teatro e também como ser humano. É difícil de explicar, mas à medida que os anos foram passando e eu fui experimentando realizar o espetáculo de formas diferentes eu pude experimentar diversos tipos de Jesus que, na maioria das vezes, tinham relação com minha condição artística, física, estética, intelectual do momento. Alêm de o espetáculo ser de rua e itinerante, ele é realizado na comunidade da Rocinha, um lugar que possui vida 24 horas por dia. Ou seja, um ator para realizar um trabalho deste necessita despojar-se de vaidades e de situações pré-combinadas nos ensaios e estar um pouco a margem, aberto ao acaso, proposto a trocar energias das mais diversas com os outros atores e com o público, que pode estar ali por ter ido assistir ao espetáculo ou simplesmente passando na rua, na janela de casa, tomando cerveja ou batendo um papo. Essa energia de viver o Jesus nesse espetáculo é única, não tem igual, muita adrenalina junta. 

Como é a interação com o público? 



Posso dizer que tem um “que” de realidade no espetáculo que mexe muito comigo, o público se emociona, fala conosco, interage, participa da cena e depois continua o resto do ano te chamando pelo nome do personagem e se sentindo feliz, isso é muito bom. Eu falei sobre autoestima, e quando toco nesse assunto não falo só sobre mim, mas também dos moradores da Rocinha que, na maioria das vezes, reconhecem o meu trabalho e se sentem felizes da sua comunidade poder ter um dia de artes, teatro, festa. É claro que eu como artista gosto de desafios, de me renovar. Por isso sempre tentei fazer esse personagem multifacetado e não todos os anos estar do mesmo jeito, por isso sinto que existe uma essência que nunca se perde, mas é como se eu tivesse conhecido, pesquisado e vivido um Jesus diferente a cada ano.
Em 2011 você ganhou patrocínio e ao invés de fazer algo que divulgava só o seu trabalho, você foi ensinar teatro para o povo da Rocinha. Pra você o teatro tem uma função social?
“ Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade; é aquele que a transforma” São essas sábias palavras de Augusto Boal que me fazem pensar muito sobre isso que me pergunta. Pra mim não tem como não juntar uma coisa com outra. Eu por exemplo tinha vontade de fazer teatro desde os três anos de idade, mas minha mãe não tinha o dinheiro para pagar um curso e nem a cultura de compreender porque eu queria fazer isso. Naquela época não era como hoje em dia, cheio de ONG’s, cursinhos em escola e tudo o mais.  Alguns anos depois eu comecei a fazer teatro no Núcleo de Artes do CIEP do Cantagalo, ficando lá por dois anos. Depois eu fui estudar teatro no Nós do Morro. 


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Foto de Rafael  Caetano 

Qual a importância do Nós do Morro nessa sua trajetória?



Foi graças a esse projeto, do Guti Fraga, que eu tive a oportunidade de começar a estudar teatro aos 10 anos de idade. Foi no Nós do Morro também que eu comecei a compreender melhor como se desenvolve o fazer teatral, e onde pude ter meus primeiros trabalhos profissionais. Como já mencionei, aos treze anos comecei a trabalhar como Jesus e fiquei por 10 anos. Hoje em dia a maioria das coisas que tenho, cursos de língua, faculdade, intercâmbio acadêmico, são através de projetos, de bolsas de estudo. Ou seja, eu vejo que devem existir muitas crianças como eu, em comunidades do Rio de Janeiro, que possuem o sonho de estudar artes, assim como existem muito adultos que tinham vontade, mas não tiveram essa oportunidade por viver numa realidade muito dura. È essa realidade que me fez e me faz pensar em trabalhos sociais. Poxa, eu venho dessa mesma realidade, não tem como não pensar nisso como não querer agir nesse campo com oque eu estudo, com o que estou me profissionalizando.

Você pensa que a formação do ator hoje está melhorando ou você acha que ainda falta muito para o Brasil ter uma escola de teatro de alto nível pra quem quer se formar?


Olha, eu penso que hoje em dia existem muitas escolas, de todos os tipos e para variadas pessoas, com variadas realidades sociais, poderem estudar e se aperfeiçoar. Poder ter opções de cursos é muito bom, porque você pode escolher em quê se aperfeiçoar, se quer dirigir, escrever, atuar, ser professor. Atualmente a CAL ( Casa das Artes de Laranjeiras) também é faculdade,  e recentemente a PUC ( Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) possui um curso de Artes Cênicas, pelo qual estudo. O curso da PUC, por exemplo, é uma opção muito boa pra mim, que não quero simplesmente fazer escola de interpretação. Esse curso possui aulas de áreas das mais variadas como Antropologia, Cinema, Letras... Disso eu gosto muito e por isso resolvi prestas vestibular para a PUC. 

E a universidade é fundamental para formar o ator? 



Na verdade eu acho que uma pessoa que é artista não precisa necessariamente passar por uma universidade, mas também penso que hoje em dia, a nossa geração tá aí pra mudar isso, pra ser um artista mais consciente e pra deixar a universidade menos quadrada e careta.
Na zona Sul do Rio há muito espaços culturais onde artistas desenvolvem trabalhos. Como é isso na Rocinha? 


Infelizmente a Rocinha, enorme do jeito que é, não possui ainda espaços culturais como cinema e teatro. Atualmente estou sabendo da inauguração de espaços culturais na comunidade, porém estou morando fora do Brasil há cinco meses e não tive a oportunidade de conhecer esses espaços de perto. . Porém, é uma tristeza uma comunidade tão grande e tão conhecida possuir pouquíssima, quase nenhuma, infraestrutura pra projetos artísticos.
Você carregou até entulho para ter um lugar pra ensinar é verdade essa história?
Então, nesse meu projeto de Oficinas de Teatro na Rocinha, em 2011, eu tive um apoio financeiro da Secretária de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.  Acontece que o apoio não cobria todas as despesas e eu tive que bater de porta em porta pedindo auxílios, espaços onde pudesse realizar minha oficina. Voltando ao assunto da minha oficina. Eu consegui uma parceria com o Centro Comunitário da Rua 2, para poder usar algumas salas do espaço para as aulas e apresentação final. Acontece que infelizmente o espaço não tinha toda a infraestrutura necessária e as vezes, na maioria das vezes, eu tinha que improvisar soluções para não suspender um dia de trabalho. Esse caso que você se refere foi no primeiro dia de aula; Eu tinha a chave para abrir a sala, que eu ainda não conhecia. Quando chego lá a sala estava cheia de entulho e eu tinha meia hora para iniciar o trabalho com os alunos. Não tive escolha, tive de arregaçar as mangas e levar o entulho para uma outra sala no primeiro andar. Essa situação foi até divertida e me fez conhecer melhor as pessoas da oficina e rimos um pouco disso tudo



Como é a recepção do mundo do teatro com um cara que é pesquisador, articulado e tem consciência critica do talento como você? Você acha se fosse de Ipanema seria mais fácil ?



Olha cara agente sabe que quando você tem uma posição social melhor, uma vida financeira mais estável, tudo é mais fácil. Acontece que a nossa geração pode escolher mudar isso. Hoje em dia um morador do subúrbio ou de uma favela, um filho de empregada doméstica, pode estudar na PUC, uma das universidades mais caras do Rio de Janeiro. Meus irmãos não tiveram estudos e na época deles não era como na nossa, onde podemos batalhar para ter uma profissão melhor, um diploma. A PUC, por exemplo, conta com projetos sociais variados, onde os alunos bolsistas com menos condições financeiras podem pedir auxílios dos mais variados, como passagem de ônibos, almoços, material didático, e etc... Então, pensando nesse lado, eu me considero um batalhador e com muita sorte. Posso sim ter nascido e me criado na Rocinha, mas isso não me limita a não poder ter um bom nível escolar, não poder estudar e me aperfeiçoar para poder trabalhar na profissão que eu sempre quis. Eu acho que preconceito existe sim e não tem como não existir. 


A sua arte já sofreu preconceito por você ser favelado? 



O que acontece comigo geralmente é que as pessoas me conhecem sabem que eu trabalho com isso ou com aquilo, que estudo na PUC (até aí tudo tranquilo) mas quando eu falo que moro na Rocinha as pessoas se assustam. Na verdade eu até gosto disso. As pessoas têm que se assustar mesmo e expandirem um pouco a visão, porque na favela não existe só analfabetos e pessoas envolvidas com tráfico, somo muitos estudantes universitários, artistas, pessoas inteligentes que tem muito pra dizer e mostrar. È claro que eu também não me encaixo muito bem num estereótipo de morador de favela que as pessoas criam, não sou negro, por exemplo, e não falo errado, isso cria mais confusão ainda na cabeça de algumas pessoas. Sinto que as vezes é como se eu fosse um pouco exótico; Você mora na Rocinha, mas porque? (risos generalizados)



A favela estaria propondo outro tipo de teatro?



Eu acredito que hoje em dia se possui outro olhar, as vezes muito romântico,  para as favelas cariocas.  Percebo que as telenovelas, o cinema e o teatro estão falando mais da favela, colocando-a em maior evidência. Considero isso um impacto construtivo e fortalecedor para a sociedade. Iniciativas como O Nós do Morro são muito importantes não só para dar oportunidades de estudo e trabalho, mas também para colocar o morro em foco, não deixa-lo á margem da sociedade.  Recentemente pude conhecer o trabalho da Cia. Marginal, do complexo da Maré, na qual uma amiga minha trabalha. Achei muito bom o trabalho deles, como falam de suas realidades, sem cliché e com uma qualidade artística indiscutível na minha opinião. cCreio que estes trabalhos que possuem uma origem vinculada aos próprios moradores do local tem uma força, uma verdade e uma importância muito positivas, acredito que assim é uma boa forma de quebrar preconceitos e alcançarmos um lugar mais digno na sociedade. Digo nós porque seja o morador da baixada, da Rocinha, da favela, estamos todos na mesma. Tamu junto! (risos, muitos risos generalizados).

Rio de Janeiro, outono de 2012 



Rio, deus Castanho.

Olhar Vatiano

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